Macroeconomia

A nova década perdida e os danos econômicos da pandemia em 2020

11 mai 2021

A década de 2011 a 2020 é pior do que a década de 80: O PIB, o PIB per capita, o consumo e o investimento em 2020 são todos menores de que os de 2011. Passamos pela mais forte e prolongada recessão de nossa história e a pandemia ampliou a derrocada.

Já comentamos anteriormente sobre as perdas e danos da pandemia em termos de capital humano. Vale dizer que, além das óbvias sequelas sociais e emocionais da pandemia, há parcela importante da formação intelectual e das habilidades adquiridas ao longo da vida que está sendo perdida com as já mais de 400 mil vítimas desse flagelo.

No início a pandemia vitimou principalmente idosos, alguns deles essenciais para a manutenção da renda de suas famílias. No período recente os contágios e falecimentos têm vitimado mais fortemente também outras faixas etárias, que incluem componentes diretos da força de trabalho que farão muita falta para a retomada do crescimento econômico.

Neste post buscamos medir, em reais de 2020, as perdas de renda total e em cada atividade econômica, de acordo com as Contas Nacionais. Observa-se na Tabela 1 abaixo que, de 2019 para 2020:

  1. A perda de PIB foi de cerca de R$ 315 bilhões;
  2. A maior perda foi a do setor de Outros Serviços com quase a metade das perdas (R$ 144,8 bilhões). Este setor foi o mais atingido dada a necessidade de aglomeração característica dos segmentos que o compõem como: alojamento, alimentação, serviços domésticos, saúde privada, educação privada e serviços prestados às famílias e as empresas;
  3. A perda de arrecadação de impostos sobre produtos (bens e serviços) foi de R$ 41,2 bilhões;
  4. Das 12 atividades econômicas[1] medidas pelo IBGE nas Contas Nacionais Trimestrais, apenas quatro atividades não apresentaram perdas: agropecuária, extrativa mineral, intermediação financeira e serviços imobiliários;
  5. O consumo das famílias, o componente mais importante da demanda final, tem perda de quase R$ 270 bilhões.

 

Tabela 1 - Valor Adicionado da atividades, PIB e componentes da demanda R$ Mi de  2020

2019

2020

2020-2019

AGROPECUÁRIA

431.388

439.838

2.480

Ext. Mineral

183.187

185.580

2.660

Transformação

760.117

727.648

-36.565

Eletricidade

189.563

188.864

-734

Construção

228.514

212.463

-16.436

INDÚSTRIA

1.361.987

1.314.555

-49.268

Comércio

901.609

874.033

-24.607

Transporte

305.944

277.673

-29.349

Serv. de inform.

225.208

224.727

-459

Interm. Finaceira

434.790

452.148

16.336

Serv. imobiliários

644.367

660.606

16.319

Outros Serv.

1.188.105

1.044.592

-144.854

APU

1.209.182

1.152.591

-57.237

SERVIÇOS

4.905.311

4.686.370

-218.475

VA

6.703.867

6.440.763

-265.825

Imposto

1.058.811

1.007.095

-42.190

PIB

7.762.961

7.447.858

-315.102

Consumo das Famílias

4.940.382

4.670.910

-269.472

Consumo do Governo

1.601.221

1.526.283

-74.938

Formação Bruta de Capital Fixo

1.233.312

1.223.733

-9.579

Exportação

1.278.977

1.256.517

-22.460

Importação

1.280.634

1.153.185

-127.449

          Fonte: IBGE – Contas Nacionais Trimestrais; elaboração dos autores.
 
Obs.: As parcelas dos valores de 2019 a preços de 2020 não geram exatamente o valor dos agregados pois, como   foram construídas a partir do encadeamento das séries, perde a propriedade da aditividade uma vez que esta só é preservada no cômputo das séries a valores correntes.
 
É interessante, também fazer estas comparações para década de 2011 a 2020, considerada a nova década perdida brasileira. Na Tabela 2 são apresentadas as informações mencionadas, todas em Reais de 2020.
  1. Em 2014, início da última recessão brasileira antes da chegada da pandemia do coronavírus (de acordo com o CODACE - Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos), o PIB brasileiro era, a preços de 2020, de R$ 7,956 trilhões e ao final daquela recessão, em 2016, foi de R$ 7,422 trilhões, o que resultou em uma perda de 533 bilhões de Reais e, portanto, de R$ 3.220 em termos de PIB per capita;
  2. Em 2019, antes de entramos na recessão ocasionada pela pandemia, ainda devíamos R$ 193 bilhões de PIB, comparado com o início da recessão de 2014, ou seja, após três anos de finda aquela recessão, ainda não havíamos recuperado todas as perdas de PIB que ela gerou;
  3. Com a chegada da pandemia, a situação ruim ficou ainda mais grave. Ao longo da última década, de 2011 a 2020, o PIB retraiu 92 bilhões de Reais, ou seja -1,2%, e como a população cresceu no mesmo período (10,1%),  o valor do PIB per capita reduziu-se em 4.024 Reais.
  4. Em termos de consumo das famílias, ele estava em 2019 em 36 bilhões de Reais de 2020 inferior ao registrado em 2014 e com a chegada da pandemia essa diferença aumentou, desde 2014, para 305 bilhões de Reais em 2020,
  5. Na década o consumo das famílias aumentou apenas 126 bilhões de Reais e o consumo per capita reduziu-se em 1.563 Reais.

Tabela 2 - PIB, Consumo das famílias e PIB per capita em Reais de 2020

Em 1.000.000 Reais

Em Reais

PIB

Consumo das Famílias

PIB per capita

Consumo per capita

2011

7.540.411

4.544.171

39.196

23.621

2012

7.685.276

4.703.192

39.626

24.250

2013

7.916.204

4.866.441

39.378

24.207

2014

7.956.099

4.975.952

39.237

24.540

2015

7.673.994

4.815.901

37.535

23.555

2016

7.422.601

4.631.105

36.018

22.472

2017

7.520.792

4.722.706

36.217

22.742

2018

7.654.938

4.834.441

36.715

23.187

2019

7.762.961

4.940.382

36.941

23.509

2020

7.447.858

4.670.910

35.172

22.058

  Fonte: IBGE – Contas Nacionais Trimestrais; elaboração dos autores.

As informações precedentes evidenciam uma paralisação econômica de 10 anos em que o valor do PIB cai, o PIB per capita cai, o consumo per capita cai, as atividades econômicas capazes de induzir um crescimento econômico sustentável reduzem-se todas. Tal cenário traz à tona o questionamento sobre até quando iremos ficar inertes crendo que as reformas e o ajuste fiscal serão suficientes para retomar o crescimento e o emprego. Já é tempo de perceber que não haverá crescimento econômico espontâneo e que o Estado tem que agir engendrando políticas econômicas que induzam o crescimento econômico e o emprego num movimento virtuoso. O mundo desenvolvido está nos mostrando que esse é o caminho.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

[1] A saber: (i) agropecuária; (ii) extrativa mineral; (iii) transformação; (iv) eletricidade e gás, água, esgoto, ativ. de gestão de resíduos; (v) construção; (vi) comércio; (vii) transportes; (viii) serviços de informação; (ix) intermediação financeira; (x) serviços imobiliários; (xi) outros serviços e; (xii) administração pública.

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Maria Ines L Dolci

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