Cenários

Performance do mercado de trabalho e percepção de bem-estar: o descompasso recente

7 abr 2026

Apesar da melhora expressiva ocorrida no mercado de trabalho brasileiro, os indicadores de confiança do consumidor do FGV IBRE não apontam para um cenário tão favorável, em especial dentre aqueles que possuem renda mais baixa.

Introdução

A taxa de desemprego no Brasil vem apresentando trajetória contínua de queda nos últimos anos, situando-se atualmente entre os menores níveis da série histórica iniciada em 2012. Esse movimento constitui um dos principais indicativos do desempenho favorável recente do mercado de trabalho brasileiro.

Entre as hipóteses mais recorrentes na literatura para esse fenômeno recente, destaca-se o papel da reforma trabalhista de 2017. Segundo estimativas de Ottoni e Barreira (2021), a reforma pode ter contribuído para uma redução da taxa de desemprego entre 1,2 e 3,5 pontos percentuais (p.p.) [1]. Em linha semelhante, Corbi et al. (2022) argumentam que a diminuição dos incentivos à judicialização das relações de trabalho após a aprovação da reforma levou a uma queda expressiva no número de ações na Justiça do Trabalho nos dois anos subsequentes, efeito que, de acordo com os autores, estaria associado a uma redução adicional de aproximadamente 1,7 p.p na taxa de desemprego[2].

Outros indicadores também reforçam a melhora recente do mercado de trabalho brasileiro, entre os quais se destacam a elevação do nível de ocupação e o aumento do rendimento do trabalho. Não obstante, apesar dessa trajetória favorável dos principais indicadores, a percepção de bem-estar econômico da população não parece acompanhar a mesma direção. Esse aparente descompasso entre a evolução do mercado de trabalho e a percepção das famílias suscita questões relevantes para a interpretação do atual momento da economia brasileira.

Alguns elementos podem contribuir para explicar esse desalinhamento. Em primeiro lugar, parte da melhora observada no mercado de trabalho decorre de mudanças estruturais ocorridas ao longo dos últimos anos. Em segundo lugar, observa-se uma concentração expressiva do emprego em ocupações de menor produtividade e com remuneração inferior à média nacional. Por fim, a inflação de alimentos tem permanecido em patamar superior ao da inflação geral, o que afeta de maneira mais direta a percepção das famílias sobre seu poder de compra e suas condições de vida.

Esse aspecto é particularmente relevante porque os choques nos preços dos alimentos tendem a produzir efeitos distributivos importantes, incidindo de forma mais intensa sobre as famílias de menor renda. Como esses domicílios destinam parcela mais elevada de sua renda ao consumo de alimentos, aumentos nesses preços comprimem de forma mais acentuada seu poder de compra e podem provocar perdas significativas de bem-estar.

Dada a relevância do tema, este artigo tem por objetivo analisar o desempenho recente do mercado de trabalho brasileiro e discutir os principais fatores que podem explicar o descompasso entre a melhora de seus indicadores e a percepção de deterioração do ambiente econômico e do bem-estar da população.

Além desta introdução, o artigo está organizado em mais cinco seções. A segunda seção examina o descompasso entre a melhora do mercado de trabalho e a piora da percepção dos consumidores, mensurada com base no indicador de confiança do consumidor. As seções seguintes se dedicam à análise dos fatores subjacentes a esse fenômeno. A terceira seção discute os impactos das mudanças estruturais sobre os indicadores do mercado de trabalho. A quarta seção apresenta as ocupações com maior participação no emprego no Brasil, bem como os rendimentos a elas associados. A quinta seção analisa a dinâmica recente da inflação, com ênfase no grupo de alimentos no domicílio, e seus efeitos sobre a renda das famílias. Por fim, a sexta seção reúne as principais conclusões do estudo.

2. Evolução dos indicadores de mercado de trabalho e dos indicadores de confiança

Nesta seção, apresenta-se a evolução de indicadores amplamente utilizados na análise do desempenho do mercado de trabalho. O Gráfico 1 mostra que, entre o 4º tri de 2019 e 3º tri de 2025, o emprego registrou crescimento médio anual de 1,5%, enquanto o rendimento apresentou variação média de 1,4% ao ano, revelando trajetórias bastante próximas entre ambos os indicadores.

Isso evidencia que a melhora recente do mercado de trabalho não se limitou à expansão da ocupação, tendo sido acompanhada também por crescimento do rendimento, ainda que em magnitude ligeiramente inferior.

Gráfico 1: Crescimento do emprego e da renda (% a.a.). 3º tri/2025 em relação ao 4º tri/2019.

  Fonte: Elaboração própria com dados da Pnad Contínua (IBGE)

O Gráfico 2 evidencia que, embora o crescimento agregado do emprego e do rendimento tenha se mostrado relativamente próximo no período analisado, essa dinâmica apresenta diferenças importantes quando observada de forma desagregada entre trabalhadores formais e informais.

O emprego formal cresceu, em média, 2,2% a.a. no período analisado, enquanto o emprego informal registrou expansão bastante modesta, de apenas 0,2% a.a. Em contrapartida, o rendimento dos trabalhadores informais apresentou crescimento médio anual de 2,8% a.a., significativamente superior ao observado entre os trabalhadores formais, cujo rendimento avançou 0,6% a.a. Ainda assim, permanece elevada a diferença de nível de renda entre os dois grupos: o rendimento médio dos trabalhadores formais alcançou R$ 4.219 no 3º tri de 2025, enquanto o dos informais foi de R$ 2.295, sendo a renda média formal cerca de 84% superior à informal.

Gráfico 2: Crescimento do emprego e da renda de trabalhadores formais e informais. (Em % a.a.). 3º tri/2025 em relação ao 4º tri/2019.

Fonte: Elaboração própria com dados da Pnad Contínua (IBGE)

O forte crescimento do emprego e da renda foi acompanhado por uma expressiva queda na taxa de desemprego e elevação do nível de ocupação, mensurada pelo IBGE como sendo a razão entre o número de pessoas ocupadas e a população em idade para trabalhar, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1: Variação da taxa de desemprego, taxa de participação e do nível de ocupação (em p.p.). 3º tri/2025 em relação ao 4º tri/2019.

Fonte: Elaboração própria com dados da Pnad Contínua (IBGE).

Os dados indicam que, entre o 4º tri de 2019 e o 3º tri de 2025, a taxa de desemprego acumulou queda superior a 5 p.p., sinalizando um mercado de trabalho aquecido. Parte desse movimento, contudo, pode estar associada à redução da taxa de participação, que recuou 1,2 p.p. no mesmo período. Vale ressaltar que tal comportamento pode refletir, ao menos em parte, a expansão do programa Bolsa Família, hipótese já discutida em análises anteriores.[3]

Uma medida alternativa para avaliar o grau de aquecimento do mercado de trabalho, menos sensível às oscilações decorrentes de variações na taxa de participação, é o nível de ocupação, definido como a razão entre a população ocupada e a população em idade de trabalhar. Sob essa ótica, observa-se que, entre o 4º tri de 2019 e o 3º tri de 2025, o nível de ocupação avançou cerca de 2,4 p.p., reforçando a percepção de melhora nas condições do mercado de trabalho.

Apesar desta visível melhora no mercado de trabalho, os indicadores de confiança dos consumidores, que buscam captar a percepção dos consumidores sobre a economia atual e futura, não apontam para um cenário tão favorável, em especial dentre aqueles que possuem renda mais baixa, como mostra o Gráfico 3.

Gráfico 3: Índice de confiança do Consumidor (ICC) por faixa de rendimento domiciliar

Fonte: Elaboração própria com dados da Sondagem do Consumidor do FGV IBRE

De acordo com ICC de fevereiro do FGV IBRE, tem ocorrido uma intensificação do pessimismo entre os consumidores brasileiros, uma vez que o indicador recuou pelo segundo mês consecutivo. Como mostra o Gráfico 3, essa deterioração da confiança também se manifestou entre os domicílios com renda de até R$ 2.100, faixa correspondente ao estrato de menor renda. Esse resultado pode estar associado à piora dos indicadores relacionados à situação financeira futura das famílias devido ao elevado endividamento e taxas de juros ainda altas.

Diante disso, é necessário analisar os fatores que ajudam a explicar o descompasso entre a melhora do mercado de trabalho e a piora da percepção dos consumidores. As próximas seções examinam os principais elementos por trás desse fenômeno.

3. Mudanças estruturais sociodemográficas e mercado de trabalho.

Nesta seção são analisados os efeitos da melhoria da composição educacional e da transição demográfica sobre variáveis centrais do mercado de trabalho, tais como a taxa de desemprego, a taxa de participação, o nível de ocupação e o rendimento do trabalho.

Nos últimos anos, observa-se uma mudança relevante tanto na composição da força de trabalho quanto na da população em idade de trabalhar, caracterizada pelo aumento da participação relativa de indivíduos com níveis mais elevados de escolaridade. Paralelamente, a estrutura etária da população brasileira também vem se alterando, em razão do processo de envelhecimento demográfico, evidenciado pelo ganho de peso relativo dos grupos com 40 anos ou mais.

Com base nessas transformações, foram realizadas estimativas contrafactuais com o objetivo de mensurar como teriam se comportado a taxa de desemprego, a taxa de participação, o nível de ocupação e o rendimento do trabalho na ausência da melhora da composição educacional e do envelhecimento populacional observados ao longo dos últimos anos.[4]

Observa-se que na ausência dessas mudanças estruturais, o nível atual da taxa de desemprego seria superior ao valor oficialmente observado. As estimativas contrafactuais indicam que, no 3º tri de 2025, a taxa de desemprego, considerando a mudanças na composição conjunta de escolaridade e idade, alcançaria 6,8%, isto é, 1,2 p.p. acima da taxa efetivamente registrada. Esse resultado sugere que parte do baixo desemprego atualmente observado no Brasil decorre de transformações estruturais ocorridas ao longo dos últimos anos.

Conforme evidencia o Painel 1B, no 3º tri de 2025 a taxa de participação situava-se em torno de 62,2%, permanecendo abaixo do nível observado no período pré-pandemia, quando alcançou 63,4% no quarto trimestre de 2019. Esse resultado poderia ter sido ainda mais desfavorável na ausência da melhora educacional e do envelhecimento populacional. A interação entre essas duas variáveis indica que, sem tais mudanças estruturais, a taxa de participação teria sido de 61,2%, isto é, 1 p.p. inferior à taxa efetivamente observada.

Uma forma alternativa de avaliar o desempenho do mercado de trabalho, contornando as oscilações da taxa de desemprego decorrentes de mudanças na taxa de participação, é por meio da análise do nível de ocupação. Com a pandemia, esse indicador sofreu expressiva retração e atingiu seu ponto mais baixo em meados de 2020. Após a fase mais aguda da crise sanitária, voltou a apresentar trajetória consistente de crescimento, alcançando cerca de 58,7% no 3º tri de 2025.

Ao controlar simultaneamente a escolaridade e as mudanças demográficas, verifica-se que o nível de ocupação deveria situar-se em 56,8%, abaixo do valor oficialmente divulgado. Esse resultado reforça a percepção de que o mercado de trabalho está menos aquecido do que sugerem alguns analistas de mercado, embora o bom desempenho ainda seja corroborado pelos indicadores de rendimento do trabalho apresentados no Painel 1D.

O rendimento real do trabalho tem apresentado trajetória de crescimento contínuo desde o final de 2021, alcançando, no 3º tri de 2025, aproximadamente R$ 3.500. Não obstante, parcela substantiva dessa expansão parece estar associada a transformações estruturais na composição da força de trabalho. As evidências sugerem que, na ausência da elevação do nível educacional e do envelhecimento populacional, o rendimento médio real do trabalho estaria em torno de R$ 2.737, valor aproximadamente 22% inferior ao oficialmente observado.

Ademais, desde o final de 2019, o rendimento real do trabalho acumulou crescimento de 8,6%, o que corresponde a uma taxa média de 1,4% a.a. Contudo, ao se controlar simultaneamente os efeitos da escolaridade e das mudanças demográficas, observa-se que esse resultado se converteria em uma variação acumulada negativa de 0,4%, equivalente a uma retração média de 0,1% a.a.

PAINEL 1: Simulações contrafactuais

Painel 1A: Taxa de Desemprego

Painel 1B: Taxa de Participação

Painel 1C: Nível de Ocupação

Painel 1D: Rendimento Real (A preços do terceiro trimestre de 2025)

Fonte: Elaboração própria com dados da Pnad Contínua (IBGE).

Tais resultados sugerem que a evolução recente dos rendimentos não pode ser compreendida exclusivamente como expressão de um mercado de trabalho mais aquecido, mas também como reflexo de mudanças estruturais que alteraram o perfil da população ocupada.

4. Análise das ocupações mais representativas no emprego

O objetivo desta seção é examinar o padrão ocupacional do mercado de trabalho brasileiro, com o intuito de identificar quais ocupações têm concentrado o maior contingente de trabalhadores. A análise é relevante para compreender por que a percepção dos trabalhadores em relação à melhora recente do mercado de trabalho não tem evoluído na mesma intensidade dos indicadores quantitativos. Isso ocorre porque, embora o rendimento do trabalho venha apresentando crescimento em termos percentuais, parte desse avanço se dá sobre uma base remuneratória ainda reduzida, em um contexto no qual a geração de empregos tem se concentrado em ocupações de menor remuneração.

Acesse o texto completo no Observatório da Produtividade Regis Bonelli


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

[1] Para mais detalhes acesse: https://portalrevistas.ucb.br/index.php/EALR/article/view/11855

[2] Para mais detalhes acesse:https://www.dropbox.com/scl/fi/0xa2cg6e1h8j8kespgwis/SSRNid4121304.pdf?r...

[3] A queda na taxa de desemprego pode ocorrer porque a pessoa encontrou um emprego ou porque parou de procurar. Pessoas sem emprego e que não procuram trabalho saem da força de trabalho, reduzindo a taxa de desemprego. Para mais detalhes sobre o impacto do Programa Bolsa Família no mercado de trabalho, ver:  https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/08ce2025_carta_...

[4] A metodologia de construção dos indicadores contrafactuais do mercado de trabalho podem ser acessadas no link a seguir: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/nota_metodologo...

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