Construção

O protagonista da construção civil: o impacto de tubos e conexões no INCC

10 ago 2026

Nos últimos 12 meses, tubos e conexões de PVC acumulam alta de 33%, acima dos 6,76% do INCC-DI. Choque permanente de 10% nesse segmento pode causar alta de até 3,5% em materiais e equipamentos. Choques negativos dão sinais de rigidez para baixo.

Ao longo dos últimos doze meses, um item pouco lembrado por quem não acompanha de perto o setor da construção ganhou destaque na inflação do segmento. Entre julho de 2025 e junho de 2026, mesmo com a desaceleração da taxa acumulada em 12 meses do INCC, tubos e conexões de PVC permaneceram como a principal contribuição para o índice. O resultado chama atenção para um componente que, embora tenha peso relevante no custo das obras, muitas vezes passa despercebido nas análises mais gerais.

Gráfico 1- Principais contribuições para a mudança do INCC acumulado em 12 meses:

Diferença entre junho de 2026 e junho de 2025, em pontos percentuais

         Fonte: Elaboração própria com dados de FGV IBRE

No resultado referente a junho de 2026, tubos e conexões de PVC acumulavam alta de 33,58% em 12 meses, muito acima dos 6,76% registrados pelo INCC-DI no mesmo período. A pressão também aparece no acumulado do ano: somente nos seis primeiros meses de 2026, esses produtos subiram 9,22%, enquanto o INCC-DI avançou 4,27%.

Gráfico 2 – Evolução do número índice

(Tubos e Conexões de PVC, INCC e Materiais e Equipamentos)

Base: Maio/1996 = 100

             Fonte: Elaboração própria com dados de FGV IBRE

O papel de tubos e conexões na construção civil

Tubos e conexões de PVC têm papel importante na construção civil. São utilizados principalmente nas instalações hidráulicas e sanitárias das edificações, incluindo os sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem e ventilação. Por isso, estão presentes em diferentes momentos da obra, desde as instalações enterradas e nos sistemas de drenagem até a montagem e a finalização das redes hidráulicas e sanitárias.

Embora materiais como cimento, aço e concreto normalmente concentrem as discussões sobre os custos da construção, o comportamento recente dos tubos e conexões de PVC mostra que a inflação do setor é formada por uma cadeia produtiva bastante diversificada. Dependendo das condições de mercado, componentes menos lembrados podem exercer influência relevante sobre o custo das obras.

O choque na cadeia produtiva

Parte desse movimento pode ser compreendida pela própria cadeia produtiva. O PVC integra a indústria petroquímica e tem entre seus principais insumos o eteno, cuja produção está ligada ao petróleo e ao gás natural. Ainda assim, a cotação do petróleo não explica sozinha o preço do produto final, pois o PVC também depende de cloro, energia e outras etapas industriais.

Após as fortes oscilações provocadas pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, o petróleo Brent recuou para menos de US$ 70 por barril em 1º de julho, nível semelhante ao observado no fim de fevereiro, quando o conflito começou. A média de junho ficou em US$ 85, US$ 22 abaixo da registrada em maio. Esse alívio, entretanto, ainda não apareceu com a mesma intensidade nos preços de tubos e conexões de PVC. A diferença sugere que a transmissão da queda do petróleo para os produtos transformados não é automática nem imediata, podendo ocorrer com defasagem ao longo da cadeia.

Estimação do impacto

Essa constatação motivou uma investigação sobre a relação entre o comportamento de tubos e conexões de PVC e a evolução do grupo Materiais e Equipamentos do INCC-FGV. O objetivo foi avaliar se a alta observada representa um movimento pontual ou se faz parte de uma dinâmica mais ampla de formação e transmissão dos custos da construção civil.

Além da intensidade das variações, também é importante investigar se aumentos e reduções nos custos dos insumos são repassados aos preços de tubos e conexões com a mesma velocidade e magnitude. A possível assimetria ocorre ao longo da cadeia produtiva, entre os custos dos insumos e o preço do produto final. A contribuição desse subitem para o INCC, por sua vez, decorre de sua variação de preço e de seu peso na estrutura do índice.

A literatura econômica oferece suporte metodológico e empírico para essa investigação. Enders e Granger (1998) desenvolveram testes capazes de identificar processos nos quais aumentos e reduções apresentam velocidades distintas de ajustamento. Já Peltzman (2000), ao analisar 242 mercados de bens de consumo e de produção, constatou que, em mais de dois terços dos casos, os preços reagiam mais rapidamente ao aumento dos custos do que à sua redução. Em média, a resposta inicial a um choque positivo era pelo menos duas vezes maior do que a reação a um choque negativo, diferença que permanecia por um período de cinco a oito meses.

No Brasil, Santos, Aguiar e Figueiredo (2015) analisaram a transmissão dos preços do etanol entre distribuidoras e postos varejistas em 18 municípios paulistas. Os resultados apontaram predomínio de assimetria positiva no curto prazo, indicando maior intensidade ou rapidez no repasse dos aumentos.

Esses estudos não permitem afirmar, por si só, que o mesmo comportamento ocorre no mercado de tubos e conexões de PVC. Eles oferecem, contudo, uma justificativa consistente para testar se as altas dos insumos são incorporadas mais rapidamente do que as reduções e por quanto tempo essas diferenças permanecem nos preços captados pelo INCC.

Para analisar como as variações nos preços de tubos e conexões de PVC se relacionam com o INCC, foi estimado um modelo NARDL — Nonlinear Autoregressive Distributed Lag — proposto por Shin, Yu e Greenwood-Nimmo (2014). A estimação utilizou dados mensais de julho de 2006 a maio de 2026.

Ao contrário de uma especificação linear convencional, o NARDL separa os movimentos de alta e de queda das variáveis explicativas. Isso permite verificar se choques positivos e negativos produzem efeitos diferentes, tanto no curto quanto no longo prazo. Essa característica torna o modelo especialmente adequado para investigar a possível existência de assimetrias na transmissão dos preços.

A influência do petróleo e da taxa de câmbio

Fonte: Elaboração própria

A análise tomou como variável de interesse o índice do grupo Materiais e Equipamentos do INCC-FGV. Essa escolha permite observar de maneira mais específica o comportamento dos custos dos insumos utilizados nas obras, reduzindo a influência da mão de obra presente no índice geral. Além do índice de tubos e conexões de PVC, foram incluídas a taxa de câmbio e a cotação internacional do petróleo Brent, com o objetivo de controlar parte da influência das condições externas sobre os custos do setor.

A escolha dessas variáveis está relacionada às características da cadeia produtiva. A resina de PVC integra a indústria petroquímica e utiliza o eteno, tradicionalmente obtido do petróleo ou do gás natural, como um de seus principais insumos. Assim, as oscilações do petróleo podem influenciar os custos das resinas plásticas, embora essa transmissão não seja necessariamente imediata ou proporcional.

Além disso, o câmbio também exerce influência, pois altera o custo relativo de matérias-primas e a importação da resina em si. No Brasil, a maior parte da produção nacional está concentrada em poucas empresas, portanto, a capacidade instalada é insuficiente para atender à demanda interna, forçando a economia brasileira a recorrer às importações, sobretudo da Colômbia, Egito e dos Estados Unidos.

O repasse é assimétrico e relevante

Os resultados apontaram a existência de uma relação de longo prazo entre as variáveis consideradas. O teste de cointegração indicou que as séries mantêm uma trajetória conjunta ao longo do tempo, o que sugere que a relação observada não se limita a oscilações passageiras. A cointegração, isoladamente, não comprova uma relação de causalidade, mas oferece evidências de um vínculo estável de longo prazo dentro da especificação estimada.

Também foram encontradas evidências de assimetria no curto prazo[1]. Isso significa que aumentos e reduções nos preços de tubos e conexões de PVC não estão associados a efeitos de mesma intensidade sobre o grupo Materiais e Equipamentos, resultado compatível com a hipótese que motivou a investigação.

As estimativas apontam uma diferença expressiva entre os efeitos estimados. Mantidas as demais variáveis constantes, uma elevação permanente de 10% nos preços de tubos e conexões está associada a um aumento de aproximadamente 3,5% no índice de Materiais e Equipamentos. Uma redução de igual magnitude, por sua vez, está associada a uma queda de cerca de 0,8%, não se descartando a hipótese de reajuste nulo. Considerando os valores arredondados, o efeito estimado de um choque positivo é aproximadamente 4,43 vezes maior, em termos absolutos, do que o efeito de um choque negativo no longo prazo.

A nível micro, um choque permanente de 10% no PVC estará associado a um aumento aproximado de 5% em tubos e conexões. Enquanto isso, como no exemplo anterior, não podemos descartar a hipótese de reajuste nulo em caso de um choque de -10%. Esse resultado pode ser melhor visualizado no gráfico 4[2].

Gráfico 3 – Resposta do INCC Materiais e Equipamentos a choques permanentes de + ou – 10% nos preços de Tubos e Conexões de PVC

Fonte: Elaboração própria. Com dados do FGV IBRE, Banco Central do Brasil e FMI

Os resultados encontrados são compatíveis com um comportamento documentado em diferentes mercados: elevações de custos podem ser incorporadas aos preços com maior rapidez ou intensidade do que reduções posteriores. Não há uma explicação única para esse fenômeno. Estoques, contratos de fornecimento, custos de reposição e características da estrutura de mercado estão entre os mecanismos que podem produzir uma transmissão desigual ao longo do tempo.

Gráfico 4 – Resposta de Tubos e Conexões de PVC a choques permanentes de + ou – 10% nos preços do PVC

               Fonte: Elaboração própria. Com dados do FGV IBRE, Banco Central do Brasil

Gwin (2009), ao analisar 269 segmentos da economia norte-americana entre 1966 e 2006, encontrou maior frequência de assimetria positiva na fabricação de bens não duráveis e de produtos ligados a recursos naturais. Em contrapartida, a assimetria não apareceu de forma clara na mineração, na fabricação de bens duráveis e nos serviços. O autor considera que as diferenças na possibilidade de acumular e administrar estoques podem ajudar a explicar esses resultados.

No modelo estimado para o INCC, tanto o câmbio quanto o preço internacional do petróleo Brent apresentaram associação estatisticamente significativa[3] com a dinâmica do grupo Materiais e Equipamentos. Isso indica que essas variáveis ajudam a explicar os movimentos do índice dentro da especificação adotada. O resultado é compatível com a hipótese de que parte da inflação da construção pode refletir condições dos mercados internacionais, especialmente nos segmentos ligados à indústria petroquímica. A significância estatística, entretanto, não comprova isoladamente uma relação de causalidade nem garante a robustez do modelo, que também deve ser avaliada por meio de testes de diagnóstico, estabilidade e especificações alternativas.

Naturalmente, o petróleo não determina sozinho a evolução dos preços de tubos e conexões de PVC. Os preços desses produtos também podem ser influenciados pelos custos de energia e logística, pela disponibilidade de resinas, pelas condições de oferta da indústria química, pelas tarifas de importação e pela demanda da construção civil. Nesse contexto, o Brent deve ser interpretado como um indicador das condições do mercado internacional de energia e da cadeia petroquímica, oferecendo uma referência para compreender parte das pressões enfrentadas pelo setor.

A importância para o INCC

O comportamento recente de tubos e conexões de PVC mostra como a análise desagregada pode revelar movimentos que ficam pouco visíveis quando se observa apenas o resultado geral do INCC. Identificar os componentes que lideram a inflação da construção ajuda a compreender melhor a origem das pressões de custos e a acompanhar com maior precisão os possíveis efeitos de choques externos sobre a economia brasileira.

Em um ambiente no qual as cadeias de energia, petroquímica e construção estão cada vez mais conectadas, acompanhar a evolução de insumos específicos torna-se tão importante quanto observar o índice agregado. O caso de tubos e conexões de PVC ilustra como movimentos iniciados nos mercados internacionais de matérias-primas podem atravessar diferentes etapas da cadeia produtiva até chegar aos custos das obras e aos indicadores de inflação da construção.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Referências:

Enders, Walter, e C. W. J. Granger. 1998. “Unit-Root Tests and Asymmetric Adjustment With an Example Using the Term Structure of Interest Rates”. Journal of Business & Economic Statistics 16 (3): 304–11. https://doi.org/10.1080/07350015.1998.10524769.

Gwin, Carl R. 2009. “Asymmetric Price Adjustment: Cross‐Industry Evidence”. Southern Economic Journal 76 (1): 249–65. https://doi.org/10.4284/sej.2009.76.1.249.

Peltzman, Sam. 2000. “Prices Rise Faster than They Fall”. Journal of Political Economy 108 (3): 466–502. https://doi.org/10.1086/262126.

Santos, Jaqueline Zani Dos, Danilo R. D. Aguiar, e Adelson Martins Figueiredo. 2015. “Assimetria na Transmissão de Preços e Poder de Mercado: o caso do mercado varejista de etanol no estado de São Paulo”. Revista de Economia e Sociologia Rural 53 (2): 195–210. https://doi.org/10.1590/1234-56781806-9479005302001.

Shin, Yongcheol, Byungchul Yu, e Matthew Greenwood-Nimmo. 2014. “Modelling Asymmetric Cointegration and Dynamic Multipliers in a Nonlinear ARDL Framework”. Em Festschrift in Honor of Peter Schmidt, organizado por Robin C. Sickles e William C. Horrace. Springer New York. https://doi.org/10.1007/978-1-4899-8008-3_9.

 

[1] Quanto aos efeitos de longo prazo, eles não são possíveis de rejeitar a 90% de confiança

[2] Não se descarta a hipótese de reajuste nulo, em caso de choques negativos, para curto e longo prazo, a 95% de confiança

[3] Ambos a 95% de confiança.

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