Saldo de postos em agosto surpreende, mas acumulado de 2026 ainda é o pior desde 2020

O saldo de vagas formais cresceu 7,2% em ago/26 frente a ago/25, mas o acumulado do ano é o menor desde 2020. Indústria e Comércio registraram o pior agosto da série, e apenas a Construção avançou no ano.
Nesta edição, analisamos o desempenho do mercado de trabalho formal brasileiro em agosto de 2026, com base nos dados do Novo CAGED. No mês, foram registradas 2.294.563 admissões e 2.128.736 desligamentos, o que resultou na criação líquida de 165.827 postos de trabalho. O resultado superou a mediana das expectativas do mercado, que projetava a abertura de 97 mil vagas segundo o Valor Data, mas representa o segundo pior saldo para meses de agosto da série do Novo CAGED. O saldo ficou 7,2% acima do registrado em agosto de 2025 (154.683 vagas), o menor da série, mas foi 30,7% inferior ao de agosto de 2024 (239.377 vagas) e 24,6% inferior ao de agosto de 2023 (219.916 vagas).
No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o saldo totalizou 1.134.033 postos formais, recuo de 25,2% em relação ao mesmo período de 2025 (1.516.881 vagas) e de 35,0% frente a 2024 (1.744.608 vagas). Trata-se do pior resultado para o período desde 2020, ano marcado pela pandemia de COVID-19. O arrefecimento reflete sobretudo o avanço dos desligamentos, que cresceram 2,7% no acumulado do ano, enquanto as admissões ficaram praticamente estáveis (alta de 0,4%).
Gráfico 1 - Admissões, demissões e saldos. Saldo mensal e acumulado –2020 a 2026 – Brasil.

Fonte: Elaboração das autoras com base nos microdados do Novo CAGED. Dados com ajustes declarados até agosto de 2026.
Sob a perspectiva setorial, conforme detalhado na Tabela 1, agosto de 2026 apresentou saldo positivo em todos os grandes grupamentos, mas com desempenho desigual. A Indústria (16.613 postos) e o Comércio (16.565 postos) registraram os menores saldos para meses de agosto de toda a série do Novo CAGED, inferiores até aos de 2020. O setor de Serviços manteve a liderança na geração de empregos formais, com 110.346 vagas, o equivalente a 66,5% do saldo total, e avançou 31,2% em relação a agosto de 2025 (84.095 vagas), acréscimo de 26.251 postos que supera a alta do saldo total (11.144). A Construção Civil somou 20.848 vagas, alta de 17,5%, enquanto a Indústria recuou 14,9% na mesma comparação. A Agropecuária reverteu o fechamento de 2.327 vagas de agosto de 2025 e abriu 1.452 postos. Já o Comércio registrou a maior retração do mês, com 19.095 vagas a menos que em agosto de 2025 (queda de 53,5%).
No acumulado de janeiro a agosto, o saldo recuou em quase todos os setores. Serviços seguiu na liderança, com 697.859 postos (61,5% do total), ainda que 10,2% abaixo de 2025, enquanto Indústria e Agropecuária encolheram 37,9% e 48,4%, respectivamente. A Construção Civil foi a única a avançar, com leve alta de 2,7%. O Comércio concentrou a maior perda, com saldo de apenas 9.300 vagas, ante 161.558 no mesmo período de 2025 (queda de 94,2%). Sozinho, o setor responde por cerca de 40% da redução de 382.848 postos no saldo nacional, seguido pela Indústria (27,1%). Com exceção da Construção, todos se encontram nos menores níveis para o período desde 2020.
Tabela 1 - Saldo de agosto – por setor de atividade. Brasil.

Os gráficos 2A e 2B ilustram a evolução do saldo acumulado de empregos em 12 meses (2A) e sua variação em relação ao período equivalente do ano anterior (2B), revelando a intensificação da desaceleração ao longo de 2026. Comércio e Indústria mantiveram trajetória de queda nesse saldo, interrompida apenas em março, e atingiram em agosto os menores níveis da série apresentada, de 98.406 e 40.000 vagas, respectivamente, com quedas de 69,6% e 82,9% em relação aos 12 meses encerrados em agosto de 2025. A Agropecuária acumula saldo negativo em 12 meses desde abril de 2026, com o fechamento de 10.663 postos em agosto, enquanto os Serviços somaram 668.495 vagas, recuo de 13,1%. A Construção Civil foi o único setor com variação positiva (1,9%), somando 91.410 vagas, e acumula o terceiro mês seguido de alta frente ao ano anterior, embora com ganhos cada vez menores.
Gráfico 2 – Evolução do Saldo por setor de atividade – Brasil.

Fonte: Elaboração das autoras com base nos microdados do Novo CAGED. Dados com ajustes declarados até agosto de 2026. No painel B, a Agropecuária é apresentada em eixo secundário, em razão da magnitude de suas variações.
A Tabela 2 apresenta as dez divisões da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) que registraram as maiores quedas absolutas no saldo acumulado de empregos formais entre janeiro e agosto de 2025 e o mesmo período de 2026. Juntas, essas divisões perderam 325.025 postos, o equivalente a 84,9% da redução do saldo nacional no período. O Comércio Varejista lidera o ranking, com reversão de 111.194 vagas, passando de saldo positivo de 69.976 para o fechamento de 41.218 postos.
Isoladamente, o varejo responde por 73,0% da perda de 152.258 vagas do comércio no ano, e o restante se divide entre o comércio por atacado (24.600) e o comércio de veículos (16.464). Na Indústria, destacam-se a fabricação de máquinas e equipamentos, cujo saldo praticamente zerou (queda de 99%), e os segmentos de couro e calçados e de confecção de vestuário, que passaram a fechar vagas no acumulado do ano. A divisão de agricultura, pecuária e serviços relacionados perdeu 50.606 postos, quase toda a retração da Agropecuária, enquanto nos Serviços as maiores quedas ocorreram em serviços de escritório e apoio administrativo (41.425) e educação (19.807). Parte das maiores quedas ocorre em atividades sensíveis ao crédito, como o comércio varejista, o comércio de veículos e a fabricação de máquinas e equipamentos, o que é compatível com um contexto de juros elevados.
Tabela 2 – Divisões CNAE com as maiores quedas no saldo acumulado. Jan a ago/25 e jan a ago/26. Brasil.

Diante do desempenho diferenciado da Construção Civil, único setor com expansão do saldo acumulado em 2026, o Gráfico 3 detalha a composição desse resultado por tipo de vínculo. Entre janeiro e agosto de 2026, o setor gerou 200.431 postos formais, alta de 2,7% em relação ao mesmo período de 2025 (195.247 vagas). O avanço decorre integralmente dos vínculos do tipo geral, que somaram 188.098 vagas (93,8% do total), um acréscimo de 9.703 postos (alta de 5,4%) superior ao ganho do setor como um todo (5.184).
Gráfico 3 – Saldo da Construção Civil por Tipo de Vínculo. Jan a ago/25 e jan a ago/26 – Brasil.

Fonte: Elaboração das autoras com os microdados do Novo CAGED com ajustes até agosto/2026. A categoria Geral inclui os contratados pela CLT, incluindo empregados públicos da administração direta e indireta.
Em contrapartida, as modalidades atípicas perderam espaço. O saldo de contratos intermitentes recuou 28,1%, de 6.971 para 5.015 vagas, e o de aprendizes caiu 15,3%, de 7.427 para 6.292. Os contratos temporários, embora tenham dobrado, seguem com participação residual (99 vagas). Esse quadro sugere que a resiliência da Construção se apoia em contratações de caráter mais permanente, e não na expansão de formas mais flexíveis de contratação.
Em relação aos rendimentos, o Gráfico 4 apresenta a evolução do salário médio real de admissão por setor de atividade entre janeiro de 2021 e agosto de 2026. Em agosto de 2026, a Construção Civil manteve o maior salário médio de admissão (R$ 2.642,46), com alta de 0,6% em relação a julho e de 3,2% frente a agosto de 2025, posição que ocupa de forma contínua desde janeiro de 2026. Na sequência aparecem os Serviços (R$ 2.493,20), praticamente estáveis no mês e com alta de 0,9% na comparação anual, e a Indústria (R$ 2.479,25), único setor com queda real frente a agosto de 2025 (1,8%).
Com isso, o salário de admissão da Indústria passou a ficar abaixo do observado nos Serviços, invertendo a posição registrada um ano antes. A Agropecuária (R$ 2.220,71) e o Comércio (R$ 2.126,05) seguem com os menores valores, embora ambos tenham registrado ganhos reais de 1,8% e 1,7% em relação a agosto de 2025, respectivamente. A estabilidade dos salários de admissão, em um contexto de desaceleração do saldo, sugere que o ajuste do mercado formal tem ocorrido mais pela quantidade de vagas do que pela remuneração oferecida.
Gráfico 4 – Salários Médios Reais dos Admitidos por Setor –2021 a 2026 – Brasil.

Fonte: Elaboração das autoras com base nos microdados sem ajustes do Novo CAGED e sujeitos a atualizações nos próximos meses. Salários em reais de agosto de 2026. Não incluem valores menores que 0,3 salários-mínimos e maiores que 150 salários-mínimos, assim como vínculos da modalidade intermitente.
Em agosto de 2026, o mercado de trabalho formal criou 165.827 vagas, 7,2% acima de agosto de 2025, mas o segundo pior resultado para o mês na série do Novo CAGED. No acumulado do ano, o saldo somou 1.134.033 postos, queda de 25,2% e o menor volume para o período desde 2020. A desaceleração atinge quase todos os setores e concentra-se no Comércio, cujo saldo acumulado recuou 94,2%, com perdas lideradas pelo Varejo, seguido pela Indústria. A Construção Civil é a exceção, com expansão apoiada nos vínculos do tipo geral.
Os demais indicadores reforçam esse diagnóstico. O saldo em 12 meses de Comércio e Indústria atingiu o menor nível da série apresentada, enquanto os salários reais de admissão permaneceram relativamente estáveis, sinal de que o ajuste tem ocorrido mais pela quantidade de vagas do que pela remuneração. Esse arrefecimento ocorre em um contexto de juros ainda muito elevados e tem no Comércio Varejista seu principal foco ao longo de 2026. Em síntese, o mercado formal segue em desaceleração gradual e concentrada, com o Comércio deixando de ser fonte relevante de vagas e respondendo pela maior parcela da queda do saldo no ano.
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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva das autoras, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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