Atividade econômica fraca impede melhora do mercado de trabalho

18/07/2019

Entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016 o Brasil enfrentou um longo período de recessão (11 trimestres), cujo perda acumulada do PIB foi de 8,2%[1], segundo Comitê de Datação de Ciclos Econômico CODACE. Desde então, tem havido uma piora no mercado de trabalho com aumento na taxa de desemprego, elevação da taxa de informalidade e aumento de pessoas desalentadas (que desistiram de procurar emprego), por exemplo.

O Gráfico 1 mostra a evolução da taxa de desemprego mensal desde o início da série em março de 2012, divulgada pela IBGE.

Gráfico 1: Taxa de desemprego no Brasil

Fonte: IBRE/FGV com dados do IBGE

Desde o final de 2014, a taxa de desemprego entrou num processo de forte aceleração, tendo atingido seu ponto mais alto em março de 2017. No trimestre móvel terminado em maio de 2019, ela atingiu 12,3%, compatível com um recuo de 0,4 pontos percentuais quando comparado com mesmo período do ano passado. Já a taxa de desemprego com ajuste sazonal chegou a 12% no mês de maio de 2019, ficando praticamente no mesmo nível do observado em fevereiro de 2019.

A taxa de desemprego atingiu 12,7% em 2018, e, segundo nossas projeções, ela irá ficar no patamar de 12,1% em 2019[2], mostrando uma tendência de recuo lento e gradual, desde a forte aceleração a partir do final de 2014. Este fato está atrelado à lenta recuperação do nível de atividade econômica, dado que sem crescimento não há sustentação do nível de emprego.

A forte recessão pela qual o país passou também gerou um aumento na taxa de informalidade, dado que com a piora da situação econômica muitas pessoas passaram a procurar emprego em postos de trabalho informais. Utilizaremos, neste post, uma definição debatida no texto “Fatos estilizados da informalidade do trabalho no Brasil”, proposto por Barbosa Filho e Veloso (2016) e presente no livro “Causas e consequências da informalidade no Brasil”.

Consideramos como trabalhadores informais, o total de trabalhadores sem carteira assinada, bem como os que trabalham por conta própria. Os Gráficos 2 e 3 mostram, respectivamente, a evolução da taxa de informalidade no Brasil e a contribuição do crescimento do número de trabalhadores informais para o crescimento da população ocupada.

Gráfico 2: Taxa de Informalidade

Fonte: IBRE/FGV com dados do IBGE

Entre o início de 2012 e meados de 2014 a taxa de informalidade no Brasil apresentou uma tendência de queda. A média anual em 2012 foi de 45,4% e em 2014 foi de 44,1%. A partir daí, porém observou-se uma elevação da taxa de informalidade, de modo que em 2018 ela ficou próxima de 47%. No trimestre móvel terminado em novembro de 2018 ela chegou a alcançar o seu patamar mais alto (48%).  

A última divulgação da Pnad Contínua (dados do mês de maio de 2019) mostrou que a taxa de informalidade foi de 47,4%, atingindo assim mais de 44 milhões de pessoas, dos quais mais da metade são trabalhadores que trabalham por conta própria.

Gráfico 3: Contribuição do crescimento do número de trabalhadores informais para o crescimento da população ocupada

Fonte: IBRE/FGV com dados do IBGE

O Gráfico 3 mostra uma nítida recuperação da população ocupada desde o fim de 2016. O ponto é que a composição do emprego tem piorado muito desde então. Analisando as informações da Pnad Contínua notamos um aumento da contribuição do emprego informal para a recuperação do emprego total. Nos últimos quatro meses, temos visto um aumento da contribuição, embora que fraco, do emprego formal, mas quem ainda está ditando o ritmo de crescimento do emprego é o setor informal.

O avanço do setor informal tem gerado impactos negativos na produtividade do trabalho, uma vez que o setor informal é bem menos produtivo que o setor formal[3]. Estimativas recentes elaboradas pelo IBRE/FGV mostraram que metade do recuo da produtividade desde o final de 2014 ocorreu devido aos avanços da informalidade.

Diante deste contexto, porém, surge uma pergunta relevante. O que poderá determinar a volta do emprego formal? O Gráfico 4 mostra a relação entre o saldo médio de emprego do CAGED, divulgado pelo ministério do Trabalho, e o nível de atividade econômica mensurado pelo Monitor do PIB – FGV.

Gráfico 4: Saldo de emprego e atividade econômica

Fonte: IBRE/FGV com dados do Ministério do Trabalho e Monitor do PIB - FGV

Tal como exposto no Gráfico 4, a lenta recuperação do emprego formal também está atrelada ao lento ritmo de crescimento da atividade econômica. Em maio de 2019, o saldo médio de emprego do CAGED foi de apenas 32 mil vagas, bem abaixo da expectativa dos analistas, acumulando em 12 meses um saldo de 400 mil, bem inferior aos 700 mil ao final de 2013.  Em 2019, o saldo médio de emprego do CAGED, segundo projeções do IBRE/FGV, deve ficar próximo de 430 mil[4] e a melhora deste número depende, dentre outros fatores, do avanço da economia.

Por último, a piora do ambiente econômico também tem feito aumentar o número de pessoas que desistiram de procurar emprego que são chamados de desalentados. O Gráfico 5 mostra a evolução do número de desalentados no Brasil desde 2012 e o sua relação com o nível de atividade econômica. 

Gráfico 5: Desalentado no Brasil e sua relação com o PIB[5]

Fonte: IBRE/FGV com dados do IBGE e Monitor do PIB - FGV

Desde agosto de 2015 o número de pessoas que desistiram de procurar emprego tem aumentado continuamente. Neste mês por exemplo o contingente de pessoas desalentadas estava no patamar de 1,7 milhões de pessoas. Desde então, o número de pessoas nesta situação não para de crescer e no mês de maio de 2019, por exemplo, atingiu quase 5 milhões de pessoas.

O crescimento do número de pessoas desalentadas parece ter uma correlação negativa com PIB, indicando que uma piora no cenário econômico geraria um aumento do número de pessoas desistindo de procurar emprego. A recuperação lenta e gradual da economia também tem gerado uma redução, em ritmo mais devagar, do desalento no país.

A melhora do mercado de trabalho, em especial a recuperação do emprego formal, depende do avanço da economia, que continua travada há algum tempo. Diante disto, reformas que sustentem no longo prazo o crescimento da produtividade, e por consequência, o crescimento do PIB são cada vez mais importantes. Não há tempo a perder.

 

[1]De acordo com cálculo realizado na série ajustada sazonalmente na divulgação das Contas Trimestrais de 30/05/2019

[2] Valores referentes à média do ano.

[3] Esta discussão pode ser encontrada no texto “A contribuição da formalização para a elevação da produtividade do trabalho no Brasil nos anos 2000”, proposto por Barbosa Filho e Veloso (2016) e presente no livro “Causas e consequências da informalidade no Brasil”.

[4] Considerando o saldo dos admitidos fora do prazo, a projeção para o ano de 2019 fica em 530 mil.

[5] Os dados de PIB são do Monitor do PIB – FGV de junho de 2019 – Ref abril.

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