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Chegou ao fim a quarta pior recessão brasileira dos últimos 150 anos

31/10/2017

O Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (CODACE), da FGV, apontou que o atual ciclo recessivo brasileiro, iniciado no 2º trimestre de 2014, teve seu “fundo do poço” no 4º trimestre de 2016. Ou seja: foram quase três anos de recessão, com uma queda acumulada do PIB total de 8,6% nesse ínterim, cifra que que vai a quase -11% quando se desconta o crescimento populacional do período (sempre em termos dessazonalizados).

Tem sido bem comum apontar essa recessão como a “pior de nossa história”, associando-a, umbilicalmente, à chamada Nova Matriz Econômica (NME).

Será que é isso mesmo? O gráfico abaixo, que apresenta o crescimento do PIB per capita acumulado em triênios móveis desde o final do século XIX, indica que o ciclo recessivo atual foi o quarto pior nesses quase 150 anos[1]. A pior recessão nesse período foi a crise do Encilhamento, logo após a proclamação da República. Mesmo quando se deixam de lado os dados pré-1900, que correspondem a estimativas no âmbito do Maddison Project[2], ainda assim as recessões dos anos 30 e do começo dos anos 80 foram mais severas do que o episódio mais recente. 

Alguns devem estar se perguntando: por que o gráfico acima apresenta triênios e não biênios ou quadriênios móveis? A razão é a seguinte: na datação de ciclos realizada pelo CODACE, que contempla apenas o período posterior a 1980, as piores recessões – 1981-83, 1989-92 e 2014-16 – duraram cerca de três anos (mais precisamente, 10,3 trimestres, em média). Desse modo, acabei utilizando essa mesma “régua”, adaptada para dados anuais, para o período anterior a 1980 (já que não há séries trimestrais do PIB brasileiro no período 1870-1979).

Outra pergunta que alguns devem estar fazendo: por que está sendo apresentado o PIB per capita e não o PIB efetivo? Por diversas razões.

Em primeiro lugar, sabemos que, quanto maior o crescimento populacional, mais fácil tende a ser o crescimento do PIB – é a fase do desenvolvimento econômico em que simplesmente a realocação setorial de pessoas do campo (com produtividade média mais baixa) para as cidades (com maior produtividade) gera expressivo crescimento econômico. Ora, a população brasileira hoje cresce 0,8% a.a., contra quase 2% a.a. no começo dos anos 90, cerca de 2,5% a.a. nos anos 80 e mais de 3% a.a. no começo do século passado.

Em segundo lugar, um dado de crescimento do PIB efetivo tem impactos muito distintos em termos de bem-estar a depender da dinâmica demográfica. Quando a população cresce, digamos, 3% e o PIB efetivo cresce o mesmo (ou seja, PIB per capita estagnado), grosso modo a taxa de desemprego tende a ficar relativamente estável. Para o mesmo crescimento do PIB efetivo de 3%, mas com população estável, a taxa de desemprego tende a recuar. Logo, o PIB per capita é uma medida mais associada ao bem-estar das sociedades (embora, sabidamente, seja bastante imperfeito nesse aspecto, por ignorar questões como a distribuição/desigualdade, a liberdade de expressão/política, o tempo de lazer etc.).

Em terceiro lugar, uma questão metodológica: até há alguns anos, o crescimento populacional era um input utilizado para estimar o crescimento do PIB efetivo de alguns setores. Hoje isso também acontece, mas de uma maneira um pouco mais indireta: o crescimento do número de domicílios é utilizado para estimar o PIB de aluguéis (efetivo e imputado). Desse modo, maior crescimento populacional gerava mais crescimento do PIB por construção.

Concluindo: a recessão de 2014-16 não foi brincadeira. Regredimos para o PIB per capita de 2008 (em R$ constantes). E a recuperação tende a ser relativamente lenta, como geralmente acontece nas saídas das chamadas balance sheet recessions.

Mas essa recessão não foi a pior de nossa história. A narrativa dominante no momento atual tenta associar a NME, sozinha, ao maior desastre econômico da história brasileira. Contudo, nem a NME foi responsável por toda a crise de crescimento (como tentei argumentar em alguns posts anteriores neste blog), nem essa foi a “pior recessão da história”.

Parafraseando Manoel Pires, o debate econômico não precisa de espantalhos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[1] Os dados foram obtidos na BCL Database, disponível em www.longtermproduvity.com.

[2] Trata-se de uma iniciativa capitaneada por vários historiadores e economistas para tentar estimar alguns agregados macroeconômicos para diversos países desde o ano 1 D.C. O nome é uma homenagem ao economista britânico Angus Maddison, precursor dessa iniciativa. Para mais detalhes, acessar: http://www.ggdc.net/maddison/maddison-project/home.htm.

Comentários

MrP
O senhor Braulio Borges é economista chefe de conhecida casa de consultoria, que tem como sócio um dos principais arquitetos responsáveis pelo desempenho recente da economia brasileira. Não seria necessário fazer full disclosure disso, e discutir a existência (ou não) de conflito de interesse?
Braulio
MrP: em primeiro lugar, o ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, vendeu sua parte da sociedade na LCA para os demais sócios-proprietários (dentre os quais não me incluo) em 2007, quando foi nomeado para o banco. Ele fez isso justamente para evitar acusações envolvendo conflitos de interesses. Em segundo lugar: minha análise não exime de culpa, na explicação das causas da desaceleração/recessão recente, as muitas decisões equivocadas de política econômica tomadas de 2012 a 2014. Mas chama a atenção para outros fatores que também contribuíram para isso, muitas vezes menosprezados ou subestimados pela narrativa que dominou esse debate nos últimos anos. Como diz aquela frase famosa: "para todo problema complexo, sempre existe uma solução elegante, simples e completamente errada". Eu nunca acreditei em soluções/explicações simples, especialmente quando o assunto envolve o fenômeno econômico, complexo por natureza. Mas a narrativa dominante encontrou uma explicação simples e elegante, o "espantalho" NME. Não acho que essa explicação seja "completamente errada", mas minha análise sugere que o tamanho da culpa é menor do que aquele atribuído pela maioria. Por fim, gostaria de lembrar que há alguns pesquisadores e economistas que fizeram parte de diversos governos, trabalham ou trabalharam como assessores de políticos, são ou foram filiados a partidos, mas nem sempre deixam isso transparente. De minha parte, o full disclosure é o seguinte: nunca trabalhei para nenhum governo ou político, não sou nem nunca fui filiado a nenhum partido e nunca apoiei explicitamente nenhum partido ou movimento político.
José Carlos O'R...
Senhores, Concordo que na macroeconomia não existe uma simples explicação para uma recessão, em sua maior parte elas acontecem por uma sucessão de fatos, ou medidas desastradas, como foram as tomadas pela NME e todas as suas antecedentes. O que diferencia esta recessão que destruiu o emprego e legou ao atraso boa parte do parque industrial brasileiro, das suas antecedentes e mencionadas, foi o fato dela ter sido endógena, todas as outras foram criadas por fatores externos e da gigantesca dependência do país outrora. Esta foi gerada no centro do poder e por total desconhecimento da dinâmica fiscal e seus efeitos.

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