Economia do Centro-Oeste: análise estrutural e estimativas para o crescimento do PIB até o 1º trimestre de 2026

Entre 2002 e 2023, CO ampliou participação na economia nacional, impulsionado por MG e agronegócio. Entre 2024 e o 1º tri/2026, PIB regional continuou fortemente influenciado pelo agro, que permaneceu como principal motor da economia da região.
Neste texto, analisa-se o desempenho da atividade econômica da região Centro-Oeste e de suas quatro unidades da federação: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. Entre 2002 e 2023, a análise foi feita com base nos dados do Sistema de Contas Regionais do IBGE (SCR). Adicionalmente, estimou-se a evolução real do PIB da região e de suas UF para 2024, 2025 e o 1º trimestre de 2026, período em que os dados do SCR ainda não estão disponíveis.
Este trabalho faz parte da iniciativa do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE (NCN), em curso desde o início de 2025, para ampliar a análise da atividade econômica sob o aspecto regional. Este trabalho é o primeiro com foco no Centro-Oeste. Trata-se de um esforço experimental, ainda em avaliação, com objetivo de dar maior visibilidade a aspectos econômicos locais. O texto com análise estrutural completa e detalhada está disponível no Portal do IBRE.
ESTRUTURA DA ATIVIDADE ECONÔMICA DA REGIÃO CENTRO-OESTE
O setor econômico de maior peso na economia do Centro-Oeste, entre 2002 e 2023, foi o de serviços, com participação média de 72,7% no valor adicionado total da região, seguido da indústria (15,8%) e da agropecuária (11,5%). Contudo, em termos de participação na economia nacional, a agropecuária do Centro-Oeste desponta como a atividade que mais contribui para a sua correspondente no país. Entre 2002 e 2023, em torno de 19% do valor adicionado da agropecuária nacional foi gerado no Centro-Oeste. Já os setores de serviços e da indústria da região, no mesmo período, tiveram participação mais modesta, respectivamente, de 10,2% e 6,1%, como mostra o Gráfico 1.
Gráfico 1 - Participação do valor adicionado da região Centro-Oeste, por atividades econômicas, no valor adicionado do Brasil, Média de 2002 a 2023 - %

Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração própria.
EVOLUÇÃO DA ATIVIDADE ECONÔMICA
O PIB do Centro-Oeste foi o que mais cresceu no Brasil, entre 2002 e 2023, de acordo com o SCR. Enquanto a média nacional de crescimento foi de 2,2% ao ano, o PIB da região cresceu 3,4% ao ano, como mostra o Gráfico 2.
Gráfico 2 - Crescimento médio anual do PIB entre 2002 e 2023, por região - %

Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração própria.
Este comportamento também é observado na análise das unidades da federação (UF) do Centro-Oeste, com todas tendo, entre 2002 e 2023, apresentado evolução de PIB acima do nacional. O principal destaque foi o Mato Grosso, UF com maior crescimento de PIB dentre todas as 27 do país, no período, com taxa média de 5,2% ao ano. O Gráfico 3 mostra a evolução do PIB do país, da região Centro-Oeste e de suas UF.
Gráfico 3 – Evolução do PIB da Região Centro-Oeste por UF - 2002 = 100

Fonte: IBGE - Sistema de Contas Regionais. Elaboração própria.
Nota-se que essa evolução real do PIB do Centro-Oeste acima do nacional, que contribuiu para a maior inserção da região na economia nacional, deve-se principalmente ao desempenho de Mato Grosso e a força do agronegócio que influenciou o aumento de participação da economia regional, não apenas na atividade agropecuária, como em toda a cadeia do setor, incluindo a agroindústria e a rede de serviços para atender ao crescimento dessa atividade.
ANÁLISE POR UNIDADES DA FEDERAÇÃO
Entre 2002 e 2023, a economia da região Centro-Oeste se desconcentrou. Em 2023, o Distrito Federal permaneceu sendo a UF com maior geração de PIB na região (32%), apesar de ter perdido 11 p.p. da participação que detinha em 2002 (42%). Goiás manteve participação relativamente estável, em torno de 30% no período. Já Mato Grosso do Sul e, mais notadamente, Mato Grosso, ampliaram suas participações no PIB regional.
Destaca-se ainda que a perda de participação do Distrito Federal no PIB da região não foi algo contínuo ao longo do tempo, tendo sido mais acentuado a partir de 2020. Em 2019, esta UF respondia por 37% do PIB regional e, em 2020, este percentual caiu para 34%, tendo apresentado participações ainda menores nos anos seguintes.
AGROPECUÁRIA
Entre 2002 e 2023, a agropecuária aumentou de participação no valor adicionado total do Centro-Oeste em 5,6 p.p. (de 11,5% para 17,1%), o maior aumento entre todas as atividades. Na análise por UF, nota-se que todas apresentaram algum ganho de participação desta atividade em suas economias, porém o maior deles foi o do Mato Grosso, com ganho de 9,6 p.p. no período, o que explica ser a UF do país com o maior peso da agropecuária em sua economia.
Através de dados da Pesquisa Agrícola Municipal do IBGE (PAM), identifica-se que a agricultura mato-grossense é bastante concentrada, com apenas três culturas (soja, milho e algodão herbáceo) sendo responsáveis por mais de 90% do valor agrícola produzido no estado. Cabe ressaltar que o Mato Grosso é o principal estado produtor desses três produtos no país.
Com isso, houve concentração da agropecuária no Centro-Oeste ao longo do período analisado. Goiás, que era o maior estado gerador de valor adicionado agropecuário na região, perdeu o posto para o Mato Grosso, que atualmente é responsável por cerca de metade do valor adicionado gerado pela agropecuária no Centro-Oeste.
INDÚSTRIA
A indústria da região Centro-Oeste tem pesos bastante distintos entre as suas UF. Em 2023, a indústria mato-grossense representou 14,8% do valor adicionado total de sua economia, o mesmo percentual regional. No entanto, Mato Grosso do Sul e Goiás apresentaram percentuais significativamente superiores, acima de 20%, enquanto a indústria do Distrito Federal foi responsável por apenas 4,1% da economia desta UF.
No Mato Grosso do Sul e em Goiás, a expressiva relevância da indústria é explicada pela indústria de transformação, responsável por mais de 60% da indústria nesses estados. A diferença é que, historicamente, Goiás responde por aproximadamente metade da indústria de transformação do Centro-Oeste, enquanto o Mato Grosso do Sul teve ganho de participação recente. Em todas as UF do Centro-Oeste, a principal atividade da transformação, em termos de valor bruto produzido é a de fabricação de alimentos, de acordo com dados da Pesquisa Industrial Anual do IBGE (PIA).
SERVIÇOS
A alta participação do setor de serviços no total do valor adicionado do Centro-Oeste (72,7% na média de 2002 a 2023), é bastante influenciada pela elevada participação dessa atividade no Distrito Federal. Em 2023, o setor de serviços do Distrito Federal foi responsável por quase a totalidade do valor adicionado gerado por esta UF (95,4%), percentual bastante superior aos apresentados pelas demais UF da região, em que o setor de serviços respondeu por cerca de metade da economia.
A principal atividade dos serviços que explica esse elevado percentual do setor no Distrito Federal é a de administração, defesa, educação e saúde públicas e seguridade social, seguida das atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados. Isto é explicado pela própria característica desta UF por ser a capital do país e concentrar em seu território órgãos da administração pública federal e instituições financeiras que atuam em todo o país.
Destaca-se ainda a expansão generalizada do setor de comércio na economia de todas as unidades da federação da região e os recuos de participação, também generalizados, nas atividades de informação e comunicação e administração, defesa, educação e saúde públicas e seguridade social.
Estimativas de PIB para 2024, 2025 e o 1º trimestre de 2026
Além dos dados oficiais do SCR, que contém informações até 2023, foram realizadas estimativas[1] para o desempenho do PIB da região Centro-Oeste e de suas UF para 2024, 2025 e o 1º trimestre de 2026, período em que os dados oficiais do IBGE ainda não estão disponíveis.
Conforme mostrado no Gráfico 4, o PIB do Centro-Oeste cresceu menos do que o do Brasil em 2024. Apenas o Distrito Federal teve taxa de PIB superior a nacional e, o estado do Mato Grosso do Sul ainda teve recuo de PIB neste ano. Já em 2025, a taxa de crescimento do PIB regional (4,1%) superou a nacional (2,3%) em praticamente todas as suas UF. O Mato Grosso do Sul foi o único estado da região a crescer menos que o país neste ano.
Gráfico 4 – Taxa de crescimento estimada do PIB em 2023 e 2024 – Brasil, região Centro-Oeste e suas UF, e anos - %

Fonte: Dados estimados no estudo. Elaboração própria.
Em 2024, a retração estimada no PIB do Mato Grosso do Sul (-0,8%) deveu-se integralmente ao setor agropecuário, que foi negativamente afetado naquele ano devido a retrações em dois dos seus principais produtos agrícolas: a soja e o milho.
Apesar de terem apresentado crescimento de PIB, em 2024, os desempenhos do Mato Grosso e Goiás também foram afetados pela agropecuária naquele ano. No Mato Grosso a retração no valor adicionado do setor não foi suficiente para uma queda no PIB, mas atenuou o desempenho positivo do estado. As retrações na produção de soja e milho[2] também explicam a queda no valor adicionado agropecuário do estado, porém, o fato de terem sido retrações significativamente menos intensas do que as do Mato Grosso do Sul, explica o porquê o recuo da agropecuária afetou menos o desempenho do PIB mato grossense em comparação ao sul mato-grossense. Em Goiás, a produção de soja e de milho[3] também retraíram, mas o desempenho positivo na pecuária contribuiu para que a estimativa do setor tenha sido positiva.
No Distrito Federal, o forte crescimento do PIB em 2024 deveu-se ao setor de serviços, que responde por mais de 90% da economia desta UF e apresentou crescimento de valor adicionado em diversas atividades do setor.
Em 2025, o desempenho da agropecuária passou a ser o de maior contribuição para o PIB do Centro-Oeste, com grande destaque dos estados do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, o que é explicado pelo bom desempenho na produção de soja e milho, culturas que alcançaram safra recorde no país em 2025 e são bastante relevantes para a agropecuária desses estados. Apesar disso, nota-se, ainda pelo Gráfico 4, que, o Mato Grosso do Sul teve crescimento de PIB menor que o nacional, o que é explicado pela retração na indústria do estado devido ao fraco desempenho da indústria de transformação. Segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE (PIM-RG), esta atividade retraiu 12,5% no estado em 2025, devido, principalmente a queda de 61,9% no segmento de fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis, explicado pelo desempenho negativo da produção de etanol[4].
Na análise para o 1º trimestre de 2026, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 1,8%, na comparação ao do 1º trimestre de 2025. Estima-se que o PIB da região Centro-Oeste tenha tido crescimento pouco menor no período (1,5%). Conforme apresentado no Gráfico 5, isto está associado ao desempenho da agropecuária, que após ter apresentado, em 2025, forte desempenho na região, iniciou 2026 com recuo. Apesar do bom desempenho agropecuário de Mato Grosso do Sul, explicado pela estimativa de crescimento da produção de soja do estado em 2026[5], as estimativas de queda ou estagnação em Mato Grosso e Goiás[6], tanto na produção de soja quanto na de milho, explicam a retração estimada para o setor regional no 1º trimestre de 2026.
Gráfico 5 – Taxa de crescimento estimada para o PIB e o valor adicionado por atividades da região Centro-Oeste no 1º trimestre de 2026 - %

Fonte: Dados estimados no estudo. Elaboração própria.
Na indústria, a transformação é a principal responsável pelo crescimento do setor, explicada principalmente pelos estados do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso. No setor de serviços, estima-se que o crescimento positivo se deva, principalmente, aos desempenhos do Distrito Federal e de Mato Grosso, UF em que todas as atividades de serviços mostraram crescimento no 1º trimestre do ano. Já em Mato Grosso do Sul e Goiás, a menor contribuição para os serviços da região é explicada por retrações estimadas nas atividades de informação e comunicação e de outros serviços.
Na análise por UF, apresentada no Gráfico 6, notam-se estimativas acima da média regional (1,5%) e nacional (1,8%) em duas UF: Mato Grosso do Sul (4,5%) e Distrito Federal (3,5%).
Gráfico 6 – Taxa de crescimento estimada para o PIB do Centro Oeste por UF no 1º trimestre de 2026 - %

Fonte: Dados estimados no estudo. Elaboração própria.
No caso do Mato Grosso do Sul, cerca de 70% de seu crescimento deveu-se à agropecuária e o restante à indústria, visto que se estima que o setor de serviços do estado tenha ficado estável no 1º trimestre do ano. No Distrito Federal, o setor de serviços explica o total do crescimento da atividade, que tem mais de 90% de participação na economia desta UF. Em Goiás e no Mato Grosso, apesar do crescimento estimado no setor de serviços, a retração no valor adicionado agropecuário, explica o fraco desempenho dos estados.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] Baseada em adaptações na metodologia das Contas Nacionais Trimestrais do Brasil. Para isto foram utilizadas diversas fontes de dados, como a LSPA, PIM-PF, PMC, PMS, PNAD Contínua, entre outras.
[2] De acordo com a PAM, em 2024, o Mato Grosso registrou retração de 13,6% na produção de soja e -5,6% na de milho.
[3] De acordo com a PAM, em 2024, Goiás registrou retração de 2,5% na produção de soja e -9,9% na de milho.
[4] Para maiores detalhes, ver: https://midiamax.com.br/cotidiano/2026/industria-mato-grosso-sul-tem-mai...
[5] Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE (LSPA) referente a abril de 2026, a produção de soja do Mato Grosso deve ter crescimento de 19,1% em 2026.
[6] A LSPA referente a abril de 2026 registra queda na produção do Mato Grosso de milho (-4,7%) e pequeno crescimento de soja (0,7%). Para Goiás a estimativa é de quedas tanto na produção de milho (-7,9%) quanto na de soja (-2,6%).










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