Este ano não vai ser igual àquele que passou

11/02/2021

A crise atual que passamos, em função da pandemia, tem várias dimensões. A principal delas é a perda das vidas humanas, que já superaram os dois milhões de óbitos no mundo. No Brasil, já foram mais de 230 mil pessoas falecidas de Covid-19. Na parte econômica, uma grave crise mundial, originada de uma questão sanitária. Associada à perda de vidas humanas há enorme perda de capital humano, conforme já citado em artigos publicados no Blog do IBRE.[1]

Evidentemente, o isolamento social necessário ao controle da pandemia traz muitos prejuízos psicossociais e econômicos. Um divertimento usual dos brasileiros é o Carnaval. E, este ano não vai ser igual àquele que passou. Não teremos Carnaval no Brasil, medida óbvia e correta, em função da pandemia ainda em curso. Carnaval é definição de aglomeração, justamente o que se deve evitar até que a pandemia finalmente acabe. Mas o carnaval também tem impactos econômicos bastante relevantes, tanto os diretos (hospedagem, alimentação e bebidas, transporte, passeios etc.), como os indiretos (indústria fornecedora de insumos, imobiliário, hospitais, entretenimento, logística, entre outros).

Não há muitos dados sobre economia do carnaval disponíveis, mas o economista Marcel Balassiano, atualmente subsecretário de desenvolvimento econômico e inovação do Rio e pesquisador-licenciado do IBRE, tem alguns artigos publicados sobre o tema,[2] reunindo alguns dados econômicos sobre o evento.

Segundo dados da revista “Ensaio Geral – Informativo Oficial da LIESA” de 2019, com dados do carnaval do Rio de 2018, citados por Balassiano, “entre os turistas, 88% foram brasileiros, com uma permanência média de 6,6 dias, e gastando R$ 280,32 por dia, em média. Já os 12% de estrangeiros ficaram mais dias, gastando mais também (7,7 dias, com gasto médio de R$ 334,01 por dia)”. Em 2018, foram 1,05 milhão de turistas (124 mil estrangeiros e 931 mil brasileiros), com um impacto total de R$ 3 bilhões na economia, sendo 2/3 de gastos dos turistas e 1/3 de outros gastos (cariocas e pessoas da Região Metropolitana do Rio, além de gastos operacionais com o evento).

Considerando como hipóteses que, para o carnaval 2021,  haveria a mesma proporção entre turistas estrangeiros e brasileiros e os mesmos gastos (a preços de 2020, com a inflação acumulada do período) e tempos de permanência de 2018, e também supondo que a quantidade de turistas em 2021, caso não houvesse a pandemia, seria a mesma de 2020, o Rio receberia pouco mais de 250 mil turistas estrangeiros e 1,8 milhão de turistas brasileiros no Carnaval. Com isso, todos esses turistas gastariam mais de R$ 650 milhões por dia, sendo R$ 90 milhões dos estrangeiros e R$ 565 milhões dos brasileiros. Durante os dias de permanência, os turistas estrangeiros gastariam perto de R$ 700 milhões e os turistas brasileiros, R$ 3,7 bilhões, totalizando R$ 4,4 bilhões somente dos gastos com turistas, o que equivale a 1,1% do PIB carioca.[3]  

Considerando que o impacto econômico total é de turistas e de não turistas também, o impacto total do carnaval 2021 poderia ser de até 5,5 bilhões (R$ 4,4 bilhões decorrente dos turistas e pouco mais de R$ 1 bilhão[4] do impacto dos cariocas, pessoas da Região Metropolitana do Rio e gastos operacionais), caso não houvesse a pandemia, o que aumentaria para 1,4% do PIB carioca. Pode parecer pouco, em proporção do PIB, mas é um número bastante considerável. Só como exemplo, o Bolsa Família tem um peso próximo de 0,5% do PIB, e tem grande importância e relevância no país.

Em resumo, esse artigo procurou estimar o quanto que o carnaval 2021 poderia impactar positivamente a economia, com base em algumas hipóteses, caso não tivesse a pandemia e o evento se realizasse. Vale frisar mais uma vez que a não realização do carnaval foi a medida mais acertada a ser tomada, em função da crise do coronavírus. Com todos vacinados, o carnaval 2022, além do maior da história, será o de maior impacto econômico!! Não vamos brincar separados.

*Os autores agradecem os comentário e sugestões do Marcel Balassiano, bem como no auxílio com os cálculos e dados.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


[1] “Em busca do capital humano perdido”, de Claudio Considera e Marcel Balassiano, 13/10/20. Disponível em: https://blogdoibre.fgv.br/posts/em-busca-do-capital-humano-perdido e “Capital humano perdido com a Covid: Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo”, de Claudio Considera, 25/01/21. Disponível em: https://blogdoibre.fgv.br/posts/capital-humano-perdido-com-covid-brasil-rio-de-janeiro-e-sao-paulo

[2] “Economista da FGV escreve artigo sobre a importância do carnaval para o Rio de Janeiro”, 06/02/20. Disponível em: https://www.carnavalesco.com.br/economista-da-fgv-escreve-artigo-sobre-a-importancia-do-carnaval-para-o-rio-de-janeiro/; “A Importância do Carnaval para a Economia do Rio de Janeiro”, 13/02/20. Disponível em: https://portal.fgv.br/artigos/importancia-carnaval-economia-rio-janeiro; “Crise do Coronavírus Ressalta Mais Ainda a Importância das Escolas de Samba”, “Samba em Revista”, maio de 2020; “‘Razões para ocorrer o Carnaval em 2021, caso a saúde permita”, 23/09/20. Disponível em: https://www.carnavalesco.com.br/artigo-razoes-para-ocorrer-o-carnaval-em-2021-caso-a-saude-permita/.    

[3] O PIB do Município do Rio corresponde a 5,2% do PIB brasileiro (dados de 2018 do IBGE, última atualização disponível). Consideramos o PIB do Brasil projetado para 2020, com uma queda de 4,3% (mediana das expectativas de mercado da Focus).

[4] Valores de 2018 dos impactos que não foram de turistas, a preços de 2020, com a inflação acumulada no período.

Deixar Comentário

Veja também