Impacto da saúde no PIB do primeiro semestre

04/09/2020

O surgimento da pandemia de Covid-19 no Brasil, e a consequente necessidade de adoção das recomendações de isolamento social para diminuir o ritmo de contágio do vírus, impactou direta e indiretamente quase todas as atividades econômicas. Neste texto busca-se compreender como as fortes retrações do valor adicionado das atividades de saúde pública e privada, que foram diretamente afetadas pela pandemia, contribuíram para a retração do PIB no primeiro semestre do ano. Em conjunto, essas duas atividades representavam 4,3% do PIB brasileiro em 2017, de acordo com as informações das Contas Nacionais divulgadas pelo IBGE, sendo a saúde pública responsável por 2,0 p.p. desse montante e a saúde privada pelos demais 2,3 p.p.

A análise dos impactos da saúde foi realizada em duas desagregações principais: (i) produção hospitalar e (ii) produção ambulatorial. A produção hospitalar é medida pela quantidade de dias de permanência das internações, enquanto a ambulatorial é medida pela quantidade de atendimentos. Além dessas desagregações, também foram analisadas as evoluções dos procedimentos realizados durante a pandemia.

Saúde pública

No primeiro semestre de 2020 o valor adicionado da saúde pública recuou 15,1% em comparação ao primeiro semestre de 2019. Esta é a maior retração do valor adicionado da atividade de saúde pública em primeiros semestres desde o início da série histórica, em 2000, conforme apresentado no Gráfico 1.

O recuo no primeiro semestre deste ano é explicado tanto pela contração da produção hospitalar (-13,4%) quanto pela produção ambulatorial (-16,9%). Apesar de retrações similares, a contribuição negativa da produção ambulatorial foi duas vezes maior do que a da produção hospitalar, tendo em vista o maior peso deste segmento na atividade de saúde pública. Embora a retração da produção ambulatorial pública no primeiro semestre deste ano seja a maior de toda a série histórica, destaca-se também a forte contribuição negativa deste segmento já observada anteriormente no primeiro semestre de 2018. A queda de 11,7% no primeiro semestre daquele ano é explicada pela forte redução dos atendimentos de consultas e das ações de promoção e prevenção em saúde.

Na análise mensal interanual dos primeiros seis meses do ano notam-se fortes retrações a partir de março que perduraram até junho, último dado disponível. Apesar disso, tanto na produção ambulatorial quanto na produção hospitalar da saúde pública a maior retração foi registrada em maio cuja retração interanual foi de 31,8%. Em junho essa retração diminuiu de intensidade, embora ainda esteja em patamar muito negativo (-23,5%), conforme ilustrado no Gráfico 2.

Apesar das fortes taxas negativas da produção hospitalar e da produção ambulatorial, desde que a pandemia começou a afetar diretamente a atividade de saúde em março, a produção hospitalar pública tem apresentado desempenho melhor que a da produção ambulatorial.

A produção hospitalar pública está concentrada (em torno de 99%) nos procedimentos clínicos (consultas, fisioterapia, tratamentos, entre outros) e cirúrgicos. No Gráfico 3 constata-se que estes dois tipos de procedimentos apresentaram variações menos negativas em junho, embora os procedimentos clínicos tenham apresentado trajetória ascendente mais evidente. De modo geral a menor taxa negativa interanual dos procedimentos clínicos em junho está associada ao retorno de tratamentos médicos, embora de forma ainda sutil. Já as consultas seguem em forte declínio desde março.

Na análise da produção ambulatorial pública, conforme ilustrado no Gráfico 4, há um tipo de procedimento que se destaca crescendo mais desde que a pandemia começou. A maior parte dos atendimentos da produção ambulatorial (em torno de 91%) concentra-se nos procedimentos para fins de diagnóstico, clínicos e de medicamentos. Enquanto os procedimentos clínicos e para fins de diagnósticos apresentaram evolução da taxa mensal interanual declinante de março a maio, com sutil melhora em junho, embora ainda muito negativa, a trajetória dos procedimentos relativos à medicação apresentou significativo crescimento no mesmo período de comparação. A análise desagregada desse procedimento específico mostra que essa elevação ocorreu de maneira disseminada pelo aumento do uso de diversos tipos de medicamentos.

Saúde privada

No primeiro semestre de 2020 o valor adicionado da saúde privada recuou 20,5%, em comparação ao primeiro semestre de 2019. Esta forte retração da atividade não tem precedentes em toda a análise das variações dos primeiros semestres desde 2000, ano de início da série histórica. No Gráfico 5 é apresentado este resultado.

Apesar do recuo no primeiro semestre deste ano ser explicado tanto pela contração da produção hospitalar (-13,2%) quanto pela produção ambulatorial (-26,9%), a contribuição da produção ambulatorial para a queda da atividade foi aproximadamente três vezes maior do que a observada pela produção hospitalar. Destaca-se que a única vez que a produção ambulatorial contribuiu negativamente para a retração do valor adicionado da saúde privada no primeiro semestre foi em 2017, quando a atividade teve recuo de -0,1%. Essa foi, inclusive, a única retração interanual da produção ambulatorial privada em primeiros semestres antes da histórica queda em 2020.

A despeito do forte tombo da atividade na análise semestral, na análise mensal interanual observa-se que após o forte declínio das variações entre fevereiro e maio, em junho o valor adicionado da atividade de saúde privada parou de ampliar sua queda. Embora o resultado ainda esteja em patamar muito negativo, o resultado de junho indica que os menores níveis de retração mensais interanuais foram alcançados nos meses de abril e maio de 2020.

De acordo com o Gráfico 6, a maior retração mensal interanual do valor adicionado da saúde privada foi em maio (-39,6%), sendo a menor taxa de variação registrada desde 2001, início da série histórica. Embora as variações de abril e maio tenham sido muito parecidas tanto na produção hospitalar quanto na ambulatorial, a maior retração ocorreu em meses diferentes nos dois segmentos. Na produção ambulatorial, a retração em abril foi a maior de toda a série histórica (-53,2%), enquanto na produção hospitalar a queda do segmento seguiu se ampliando até maio, quando alcançou seu vale (-25,3%).

Destaca-se que apesar da produção ambulatorial ter apresentado quedas mais acentuadas do que a produção hospitalar, e ainda estar com retrações maiores, a tendência ascendente da taxa em junho é mais evidente do que a da produção hospitalar, que segue com retração bem parecida com a queda de maio. A maior parte dos atendimentos da produção ambulatorial (em torno de 99%) concentram-se em procedimentos para fins de diagnóstico e clínicos (consultas, fisioterapia, tratamentos, entre outros) e ambos apresentaram retrações menores em junho com significativa tendência ascendente. Enquanto em maio os dois procedimentos registraram quedas em torno de 50%, na comparação interanual, em junho os procedimentos para fins diagnósticos recuaram 33,7% enquanto os procedimentos clínicos 38,1%. Cabe destacar que nos procedimentos clínicos, embora alguns tratamentos tenham apresentado menores retrações em junho, estas não foram tão evidentes, como é o caso dos tratamentos odontológicos e de terapias especializadas, que ainda tiveram em junho retrações em torno de 80% e 50% respectivamente.

Na produção hospitalar, os dias de internações concentram-se nos procedimentos clínicos e cirúrgicos (em torno de 98%). Os procedimentos clínicos, embora de forma ainda muito sutil, apresentaram taxas menos negativas em junho em comparação a maio, tendo sido impulsionados, principalmente, por uma menor retração das consultas e dos tratamentos oncológicos. No entanto, os procedimentos cirúrgicos continuaram ampliando a queda interanual em junho conforme apontado no Gráfico 8. As menores retrações de alguns tipos de cirurgias em junho foram muito sutis e não foram suficientes para compensar as ampliações das retrações de alguns tipos de cirurgias, como as obstétricas e oncológicas, por exemplo.

Impacto no PIB

As fortes retrações observadas nos valores adicionados da saúde pública e privada no primeiro semestre tiveram impacto no desempenho do PIB brasileiro. Ambas as atividades compõem o setor de serviços do PIB. Na desagregação da economia em 12 atividades, a saúde pública representava, em 2017, 13% da atividade de Administração Pública, enquanto a saúde privada representava 15,1% da atividade de Outros serviços.

Segundo os dados das Contas Nacionais Trimestrais e estimativa dos autores, o valor adicionado da atividade de Administração Pública recuou 4,5% no primeiro semestre do ano, sendo que o recuo de 15,1% da atividade de saúde pública contribuiu em -2,0 p.p. para esta queda.

Já a retração interanual do valor adicionado da atividade de Outros Serviços, que foi de -13,6%, no primeiro semestre deste ano, teve contribuição de -3,1 p.p. da saúde privada que recuou 20,5% no período. Embora a retração da saúde privada tenha representado em torno de 20% da retração da atividade de Outros Serviços, todos os demais segmentos que compõem a atividade também recuaram no período analisado.

Estes resultados levam a uma contribuição do valor adicionado da saúde pública de aproximadamente -0,5 p.p. para o setor de serviços e de -0,3 p.p. para o PIB, na comparação interanual do primeiro semestre de 2020. Já a contribuição do valor adicionado da saúde privada para o desempenho do setor de serviços e do PIB no primeiro semestre deste ano foi de -0,7 p.p. e -0,5 p.p., respectivamente. Em conjunto, as saúdes pública e privada responderam por -1,2 p.p. da retração de 5,9% do setor de serviços no primeiro semestre do ano. Para o PIB, a contribuição foi de -0,8 p.p. para a retração de 5,9% do total da economia. Estes resultados estão apresentados no Gráfico 9 abaixo.

É importante destacar que estas estimativas realizadas do impacto direto sobre a saúde pública e privada não abrangem toda a composição do que seria considerado o setor de saúde da Conta Satélite de Saúde do Brasil, divulgada pelo IBGE. Além das atividades exclusivas de saúde pública e privada, a Conta Satélite abrange outras atividades da cadeia de saúde, tais como fabricação e comércio de produtos farmacêuticos, entre outras atividades relacionadas à saúde, todas mensuradas nas suas atividades principais.

Outro ponto importante de destacar é que essas estimativas são calculadas com base nos dados disponibilizados no DataSUS, base de dados do Ministério da Saúde. Essas informações, por serem constantemente atualizadas, podem sofrer grandes alterações entre as divulgações.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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