Índice Geral de Industrialização da Construção

Industrialização da construção civil brasileira avançou em 2025-26, mas ainda é gradual e desigual, segundo Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC) - elaborado a partir de quesitos especiais da Sondagem da Construção no mês de junho.
Um dos grandes desafios do setor da construção é sua baixa produtividade. Historicamente há uma diferença expressiva para o setor manufatureiro. Nos últimos 30 anos, no Brasil, a diferença se reduziu, refletindo a piora mais acentuada na produtividade da indústria: entre 1995 e 2025, enquanto a produtividade agregada do trabalho da economia brasileira (valor adicionado por pessoal ocupado) cresceu 19,4%, na construção civil e na indústria de transformação caiu 19,9% e 29,5%, respectivamente.[1]
É fato que o resultado consolidado obscurece os níveis distintos de eficiência produtiva dentro do setor da construção – de acordo com a origem da produção ou o segmento setorial. Entretanto, permanece um grande abismo entre a eficiência da atividade empresarial da construção e da indústria de transformação.
A industrialização da construção civil no Brasil ainda enfrenta alguns impasses econômicos. Entre eles destacam-se os elevados investimentos iniciais em tecnologia e infraestrutura, a necessidade de qualificação da mão de obra, as barreiras culturais relacionadas à adoção de novos processos, a adaptação dos modelos de contratação e suprimentos, além da necessidade de integração entre projetistas, fabricantes, construtores e fornecedores. A superação desses obstáculos exige esforços coordenados entre empresas, instituições de pesquisa, entidades setoriais e formuladores de políticas públicas.
Nos últimos anos, com o crescimento setorial alavancado pelos investimentos na habitação e, mais recentemente, pela infraestrutura, ocorreram avanços, mais empresas se modernizaram. Entretanto, não se dispõe de métricas que acompanhem essa evolução.
Diante desse cenário, torna-se fundamental o desenvolvimento de instrumentos capazes de monitorar e avaliar o avanço da industrialização no setor, de um indicador que permita medir o grau de adoção de práticas, tecnologias e sistemas industrializados, fornecendo subsídios para a tomada de decisão estratégica. Além de possibilitar o acompanhamento da evolução das empresas e do mercado ao longo do tempo, esse indicador pode contribuir para a identificação de oportunidades de melhoria, para a definição de metas de desempenho e para a formulação de políticas de incentivo à modernização do setor.
Assim, dada a necessidade de monitorar de forma objetiva o avanço da industrialização da construção civil, o FGV IBRE desenvolveu um indicador setorial - o Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC) - elaborado a partir de informações captadas em quesitos especiais introduzidos na Sondagem da Construção em junho de 2025 e junho de 2026. Assim, já se dispõe de um retrato atualizado, e ainda é possível acompanhar a dinâmica recente na utilização dos sistemas. Os quesitos passarão a ser aplicados anualmente.
A seguir são apresentados a metodologia e os resultados apurados.
Metodologia
O indicador desenvolvido foi baseado no módulo qualitativo de industrialização da Sondagem da Construção do FGV IBRE. O indicador foi concebido para estimar a participação efetiva das obras que utilizam sistemas construtivos industrializados, considerando tanto a adoção declarada de tais sistemas quanto a intensidade de sua utilização pelas empresas. A metodologia utiliza duas perguntas em cascata: a primeira identifica se a empresa emprega sistemas construtivos industrializados, integral ou parcialmente, em suas obras; a segunda, respondida apenas pelas empresas que utilizam esses sistemas, mensura o percentual de obras nas quais a industrialização está presente.
A construção do índice combina a taxa de adoção (IA) com a intensidade de uso dos sistemas industrializados (II). Inicialmente, calcula-se a proporção de empresas que utilizam sistemas industrializados total ou parcialmente. Em seguida, essa proporção é ponderada pela intensidade média de utilização, obtida a partir das faixas de participação das obras industrializadas. Para tanto, são utilizados os pontos médios das classes de resposta (5%, 17,5%, 37,5%, 62,5% e 87,5%), permitindo a obtenção de uma medida contínua e intuitiva. O resultado é expresso em uma escala de 0 a 100, diretamente interpretável como o percentual estimado das obras do segmento que empregam algum sistema construtivo industrializado.
Abaixo será demonstrado a metodologia com os resultados obtidos em 2025 como exemplo.
Indicador de Adoção (IA)
O Indicador de Adoção mede a proporção de empresas que utilizam sistemas construtivos industrializados, seja em todas as obras ou em parte delas.
Sua formulação é dada por:

Indicador de Intensidade (II)
O Indicador de Intensidade mede a participação média de obras industrializadas entre as empresas que declararam utilizar sistemas construtivos industrializados.
Para cada faixa de resposta é atribuído o respectivo ponto médio:


Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC)
O Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC) combina os dois componentes anteriores, incorporando simultaneamente a disseminação e a intensidade de uso da industrialização.

Os três indicadores fornecem informações complementares:
- IA (Adoção): mede o alcance da industrialização entre as empresas do setor;
- II (Intensidade): mede o nível médio de utilização entre os adotantes;
- IGIC (Índice Geral de Industrialização da Construção): sintetiza adoção e intensidade em uma única métrica, representando a participação efetiva estimada de obras industrializadas no segmento.
Dessa forma, o IGIC permite acompanhar a evolução da industrialização ao longo do tempo, comparar segmentos da construção e avaliar o impacto de iniciativas voltadas à modernização, digitalização e aumento da produtividade do setor.
Ao sintetizar simultaneamente a disseminação e a intensidade de uso da industrialização, o indicador proposto supera limitações de métricas baseadas apenas na adoção ou apenas na pré-fabricação. Além de possibilitar o acompanhamento da evolução temporal da industrialização no setor, o índice oferece uma ferramenta de fácil interpretação para empresas, associações setoriais e formuladores de políticas públicas, contribuindo para a definição de estratégias de modernização, aumento de produtividade e desenvolvimento tecnológico da construção civil.
Resultados
Os quesitos especiais da sondagem referentes à utilização de sistemas industrializados foram aplicados em dois momentos: junho de 2025 e junho de 2026.
Aplicando-se a metodologia aos dados da sondagem realizada em junho de 2026, observou-se que 33,6% das empresas declararam utilizar sistemas industrializados em suas obras e 14,6% afirmaram utilizá-los em parte das obras, totalizando 48,2% de empresas com algum grau de adoção. Assim, o Indicador de Adoção (IA) alcançou 48,2.
Entre essas empresas, 26,9% utilizam sistemas industrializados em até 10% das obras; 28,9% entre 10% e 25%; 18,5%, entre 25% e 50%; 13,1% entre 50% e 75%; e 12,6% em mais de 75% das obras. A média ponderada resultante é de 32,6%. Ou seja, entre as empresas que utilizavam sistemas industrializados, a participação média de obras industrializadas é de aproximadamente 32,6%. O Indicador de Industrialização (II), portanto, registrou 32,6.
A combinação dos indicadores de adoção e intensidade permite estimar o grau geral de industrialização do setor ou o Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC), que alcançou cerca de 15,7 pontos, indicando que em junho de 2026, aproximadamente 15,7% das obras do setor utilizavam algum sistema construtivo industrializado.
Evolução do Índice Geral de Industrialização da Construção
Os resultados da Sondagem da Construção indicam avanço da industrialização do setor entre 2025 e 2026, tanto em termos de adoção dos sistemas construtivos industrializados pelas empresas quanto na participação dessas soluções nas obras executadas.
O índice evoluiu de 14,8 pontos em 2025 para 15,7 pontos em 2026, correspondendo a um crescimento de 0,9 p.p em um ano. O resultado revela uma trajetória positiva da industrialização da construção civil, ainda que em ritmo gradual.
A decomposição do indicador mostra que o avanço foi impulsionado principalmente pela expansão da base de empresas que utilizam soluções industrializadas, enquanto a intensidade média de utilização permaneceu praticamente estável. Em outras palavras, a industrialização tornou-se mais disseminada entre as empresas do setor, mas ainda não houve mudança significativa na proporção de obras industrializadas dentro das empresas que já adotavam essas tecnologias.
Evolução da adoção de sistemas construtivos industrializados
A parcela de empresas que declarou utilizar sistemas construtivos industrializados em suas obras aumentou de 26,4% em 2025 para 33,6% em 2026, representando um crescimento de 7,2 pontos percentuais. Em contrapartida, a proporção de empresas que afirmaram não utilizar qualquer sistema industrializado recuou de 54,3% para 51,8%.
Observa-se ainda uma redução da participação das empresas que utilizam sistemas industrializados apenas em parte das obras, passando de 19,3% para 14,6%. Esse movimento sugere que parte das empresas que se encontravam em estágio inicial de adoção passou a incorporar essas soluções de forma mais ampla em seus empreendimentos.
Como resultado, o Indicador de Adoção (IA) avançou de 45,7 para 48,2 pontos, correspondendo a um crescimento de 2,5 p.p no período analisado. O resultado reflete a ampliação da difusão da industrialização entre as empresas de construção.
Evolução da intensidade de utilização
A distribuição do percentual de obras que utilizam sistemas industrializados apresentou mudanças mais moderadas. Houve aumento da participação das empresas que concentram a industrialização em parcelas mais elevadas de seus portfólios de obras. As faixas de utilização entre 50% e 75% e entre 75% e 100% das obras cresceram de 10,8% para 13,1%, e de 12,0% para 12,6%, respectivamente.
Por outro lado, observou-se redução na faixa intermediária de 25% a 50% das obras, que passou de 22,9% para 18,5%, indicando uma redistribuição da utilização em direção aos níveis mais elevados de industrialização.
Essas mudanças resultaram em um aumento marginal do Indicador de Intensidade (II), que passou de 32,4 para 32,6 pontos. O resultado demonstra que a intensidade média de utilização dos sistemas industrializados permaneceu relativamente estável, ou seja, o principal vetor de crescimento da industrialização no período foi a entrada de novas empresas no processo de adoção, mais do que um aumento expressivo do uso entre as empresas já industrializadas.
Sistemas construtivos industrializados mais utilizados
A pesquisa indagou também quais os sistemas construtivos industrializados utilizados. Os elementos pré-fabricados de concreto despontam como a solução mais utilizada pelas empresas nas duas pesquisas, com participação de 54,9% em 2025 e 56,8% em 2026.[2] Em seguida destacam-se as estruturas em aço, presentes em 45,6% e 44,0% das empresas, respectivamente, e o drywall, com participação próxima de 41% nos dois anos analisados.
Também foi observado crescimento na utilização de alguns sistemas com maior conteúdo tecnológico. As fachadas pré-fabricadas aumentaram de 12,9% para 15,5%, os sistemas steel frame passaram de 15,6% para 17,4%, os painéis cimentícios cresceram de 18,1% para 20,7% e a madeira engenheirada avançou de 9,3% para 11,6%.
Por outro lado, soluções como banheiros prontos, caixas de elevador pré-fabricadas e sistemas modulares ou painéis tridimensionais apresentaram redução de participação no período. Embora continuem presentes no mercado, esses resultados sugerem que a expansão recente da industrialização ocorreu principalmente por meio da ampliação do uso de sistemas já consolidados, especialmente componentes pré-fabricados de concreto, estruturas metálicas e soluções industrializadas para vedação e fechamento.
Resultados por segmento
Os resultados do segmento de Edificações mostram o avanço da industrialização entre 2025 e 2026, tanto na adoção de sistemas construtivos industrializados pelas empresas quanto na participação dessas soluções nas obras executadas.

Nesse período, o IGIC passou de 16,1 pontos para 18,8 pontos, representando um crescimento de 2,7 pontos percentuais em um ano. O desempenho indica uma evolução da industrialização nas obras de edificações em ritmo superior à média do setor.
No segmento de Infraestrutura, também foi observado avanço da industrialização, refletido tanto pela maior adoção de sistemas construtivos industrializados quanto pelo aumento da participação dessas soluções nas obras executadas. O índice evoluiu de 15,0 pontos para 16,1 pontos em 2026, o que corresponde a um crescimento de 1,1 ponto percentual em um ano. O resultado demonstra uma trajetória positiva para o segmento, ainda que em um ritmo mais gradual.

Em relação ao indicador de adoção, ambos os segmentos registraram crescimento em 2026. O índice atingiu 54,7 pontos em Edificações e 53,1 pontos em Obras de Infraestrutura, representando avanços de 5,1 p.p. e 2,4 p.p., respectivamente.

Já no indicador de intensidade, os dois segmentos também apresentaram evolução. Edificações alcançou 34,4 pontos, com crescimento de 2,0 p.p., enquanto Obras de Infraestrutura atingiu 30,3 pontos, avançando 0,7 p.p. em relação ao ano anterior.
Quanto aos Sistemas construtivos industrializados mais utilizados, é possível observar diferenças entre os resultados dos segmentos. No segmento de Infraestrutura, o sistema de pré-fabricação de concreto é o mais assinalado, com 65,6 %. Estrutura em aço, o segundo mais informado, com 45,7%.
No segmento de edificações a opção mais assinalada foi Dry-wall (65,8%), pré-fabricação de concreto (61,2%) e estrutura em aço (51,0%) logo em seguida. Merece destaque o avanço dos sistemas industrializados mais associados à construção a seco e à pré-fabricação no segmento de Edificações. Entre 2025 e 2026, a utilização de painéis cimentícios aumentou de 18,1% para 34,3%, enquanto o steel frame passou de 15,6% para 32,0% e as fachadas pré-fabricadas de 12,9% para 28,0%.
Síntese dos resultados
Os resultados indicam que a industrialização da construção civil brasileira apresentou evolução positiva entre 2025 e 2026. O aumento do Indicador de Adoção revela um processo de gradativa disseminação das tecnologias industrializadas entre as empresas do setor, enquanto a estabilidade do Indicador de Intensidade sugere que ainda há espaço para aprofundar a utilização dessas soluções dentro das organizações já industrializadas.
O crescimento do IGIC sinaliza a continuidade do processo de modernização produtiva da construção civil, o que reforça a importância do monitoramento sistemático do fenômeno. Além disso, a análise dos sistemas utilizados mostra que a industrialização continua fortemente apoiada em tecnologias já consolidadas, ao mesmo tempo em que soluções mais avançadas, como steel frame, fachadas pré-fabricadas e madeira engenheirada, começam a ampliar sua participação no mercado. A próxima pesquisa permitirá confirmar esse movimento de modernização.
Revisão da literatura
Os trabalhos mais próximos metodologicamente ao IGIC:
1. Sanchez & Attouri (2026) – Industrialized Construction Index (ICI)
Referência:
SANCHEZ R., Daniel F.; ATTOURI, Emna. Industrialized Construction Index (ICI): a project indicator for industrialization assessment. Proceedings of the 34th Annual Conference of the International Group for Lean Construction (IGLC), 2026.
Semelhança com o IGIC:
Cria um índice sintético de industrialização;
Combina múltiplas dimensões em um único indicador;
Busca medir um conceito abstrato (grau de industrialização);
Utiliza uma abordagem de agregação de componentes em vez de um único indicador operacional.
No ICI, os componentes são:
ICI=f(Standardization, Prefabrication, Modularization, Automation, Digitalization)
2. Sotorrío Ortega, Cobo Escamilla e Tenorio Ríos (2025)
Referência:
SOTORRÍO ORTEGA, G.; COBO ESCAMILLA, A.; TENORIO RÍOS, J. A. Proposing a quantitative index to measure the industrialisation level of building projects. Results in Engineering, 2025.
Principais contribuições:
- Desenvolve um Industrialisation Level Index (ILI);
- Utiliza médias ponderadas;
- Considera intensidade de industrialização dos diferentes sistemas construtivos;
- Produz um resultado em escala contínua para comparação entre projetos.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade/temas/indicador-setorial-...
[2] O quesito comporta mais de uma assinalação.










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