Mediocridade brasileira

Produtividade explica só 25% do crescimento do PIB brasileiro desde 1982, contra mais de 50% no mundo — e o número caiu para 16% entre 2020 e 2025. Criação de uma agência independente de produtividade deveria ser considerada pelo próximo governo.
A produtividade é o principal motor do crescimento econômico, do aumento da renda per capita e da elevação dos padrões de vida a longo prazo de uma economia. Devido a sua importância, há algumas instituições que são referência na produção de estatísticas e estudos com o objetivo de orientar o debate sobre esse tema.
Em particular, o Conference Board é um benchmark internacional em análises de produtividade, disponibilizando dados históricos anuais com informações sobre PIB, população, emprego, horas trabalhadas e produtividade para uma grande amostra de países. A instituição foi fundada em 1916, mas o banco de dados macroeconômicos de produtividade começou a ser estruturado com séries anuais a partir de 1950.
Ark e Pilat (2024)[1] utilizam essa base de dados para ilustrar a importância da produtividade para o crescimento. No Gráfico 1 do artigo – reproduzido abaixo – há uma decomposição da taxa de crescimento do PIB global nas contribuições da produtividade do trabalho e do insumo de trabalho. Ela demonstra que a contribuição do crescimento da produtividade do trabalho supera, de longe, a do insumo de trabalho. Os dados abrangem 131 países e o crescimento do insumo de trabalho refere-se às horas trabalhadas, sempre que disponíveis; caso contrário, refere-se ao número de pessoas empregadas.
Gráfico 1: Decomposição do crescimento do PIB Global (%, 1970-2023)*

*Todos os valores são expressos como taxas de crescimento logarítmicas. O período da década de 2020 refere-se aos anos de 2020, 2021, 2022 e 2023 (projeção).
Fonte: The Conference Board Total Economy Database™, abril de 2023. (Ark e Pilat (2024).
A decomposição mostra que a contribuição do crescimento da produtividade do trabalho supera em muito a do fator trabalho. Além disso, fica evidente que o crescimento global da produtividade do trabalho foi particularmente forte durante a década de 1970, enfraqueceu durante as décadas de 1980 e 1990 e se recuperou novamente durante a primeira década do século XXI. Entretanto, a despeito de um menor ritmo de crescimento da economia mundial, em termos agregados, a contribuição da produtividade do trabalho (PT) continuou a ser um fator determinante para o crescimento econômico. Com exceção dos anos 80, pode-se afirmar que a PT contribuiu com mais de 50% para o crescimento econômico. E o Brasil?
O Observatório da Produtividade Regis Bonelli divulga dados históricos da PT desde 1981 utilizando como medida de fator trabalho horas trabalhadas efetivas. O Observatório também divulga séries de PT em que a população ocupada é a medida de fator trabalho. Porém, como há uma tendência histórica de redução da jornada de trabalho – em 1981 a jornada média era de 43,6 horas por semana e em 2025 foi de 38,5, a medida preferida é a que utiliza horas trabalhadas.
O Gráfico 2 e a Tabela 1 apresentam a decomposição do crescimento do Valor adicionado (VA - que exclui os impostos do PIB). Os dados mostram a “mediocridade brasileira”, pois em termos históricos, a produtividade contribui apenas com 25% para o crescimento. Apenas nos anos 2000 a PT contribui com quase 50% para o crescimento do VA anual médio de 3,5% no período. Os dados dos últimos anos mostram um resultado mais preocupante, pois a contribuição da PT para o crescimento foi de apenas 16% entre 2020-2025. Para comparar com o Gráfico 1, considerando o período entre 2020-2023 o resultado será bem similar, 20%, de acordo com a Tabela 1.
Gráfico 2: Decomposição do crescimento do Valor adicionado do Brasil (%, 1982-2025)

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli.
Elaboração do autor.
Tabela 1: Decomposição do crescimento do Valor adicionado do Brasil (%, 1982-2025, período selecionados)

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli.
Elaboração do autor.
Conforme destacado no artigo “Os limites do possível”: reflexões sobre o crescimento sustentável da Renda per capita brasileira”: “para podermos manter um ritmo de crescimento da renda per capita a taxas mais elevadas e sem gerar desequilíbrios é crucial que haja também o crescimento da PT. Sem ela, não temos garantia que o crescimento será sustentável.”[2]
A agenda de produtividade é muito extensa, com impactos ao longo do tempo, pois tem como objetivo não apenas à melhoria do ambiente de negócios, mas também do capital humano de trabalhadores e empresários. É uma agenda de Estado, e não apenas de governos, que é fundamental para a melhoria do padrão de vida de toda sociedade.
A experiência internacional tem mostrado que as comissões de produtividade são um arranjo institucional promissor para lidar com todos os desafios inerentes ao processo de implementação de uma agenda de reformas econômicas estruturais: exigência de qualidade de um corpo técnico independente, com o uso de metodologias transparentes e sistemáticas de avaliação e elaboração das políticas públicas; colaboração entre todos os poderes de governo e a sociedade e, principalmente, mitigação de pressões de grupos de interesse.[3]
Por exemplo, a comissão de produtividade australiana é um caso de sucesso. Desde sua criação em 1998, o seu campo de estudo e atuação foi ampliado e hoje abrange questões estruturais, ambientais e de cunho social.
Diante do medíocre crescimento da produtividade no Brasil, a criação de uma agência nesses moldes deveria ser considerada pelo próximo governo. Seria uma recomendação importante para fazer parte de um programa de governo que tem como objetivo o crescimento econômico sustentável.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
Este artigo foi publicado originalmente no Observatório da Produtividade Regis Bonelli.
[1] Bart Ark & Dirk Pilat, 2024. "Productivity drivers and pro-productivity policies: G20 economies, India and South Korea," Indian Economic Review, Springer, vol. 59(1), pages 95-121, October. Bart van Ark foi Economista-Chefe e Diretor do Centro de Economia, Estratégia e Finanças do The Conference Board entre 2008 e 2020.
[2] https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade/artigos/os-limites-do-pos....
[3] Ver “Orçamento público e comissões de produtividade” (https://blogdoibre.fgv.br/posts/orcamento-publico-e-comissoes-de-produti...).










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