Mercado de trabalho no Brasil: situação atual e desafios para o futuro

27/11/2020

Diante da escalada dos eventos nos últimos meses associados à pandemia do coronavírus, o nível de incerteza em relação ao desempenho da economia brasileira tem se elevado de forma extraordinária e irá gerar grandes distorções no país, em especial no mercado de trabalho. Desse modo, faz-se necessário, mais do que nunca, a análise de pesquisas de alta frequência, de modo a ter estimativas mais precisas do impacto da crise ao longo dos últimos meses.

(este artigo foi redigido antes da divulgação, esta semana, 23 a 27/11, dos dados do Caged de outubro e da PNAD-C do terceiro trimestre)

O IBGE divulga regularmente, a partir dos dados da PNAD Contínua, os principais indicadores de mercado de trabalho, permitindo assim uma análise completa do atual momento do emprego no país. Esses dados divulgados mensalmente, no entanto, se referem sempre ao trimestre móvel, de modo que temos, para cada mês, a média de diversas variáveis no mês de referência e nos dois anteriores.

Diante do atual cenário de elevadas distorções causadas pelo avanço da pandemia do coronavírus, as informações de alta frequência são cada vez mais relevantes para que possamos entender os seus desdobramentos na economia brasileira. Em função disso, diversos pesquisadores têm estudado formas de mensalizar os indicadores da PNAD Contínua, de modo a terem informações mais precisas do atual momento do mercado de trabalho brasileiro, eliminando, assim, os efeitos da média móvel e obtendo fatos estilizados para cada um dos meses. Dentre esses trabalhos, podemos citar o artigo proposto por Hecksher (2020a), pesquisador do IPEA, e o trabalho proposto no Box do Relatório de Inflação de junho de 2020, divulgado pelo Banco Central, que, embora usem métodos diferentes, encontram resultados similares.

O objetivo deste texto é aplicar a metodologia proposta pelo Banco Central a fim de que possamos traçar um diagnóstico dos principais movimentos do mercado de trabalho no Brasil nos últimos meses. Tal como proposto pelo Banco Central, para mensalizar as informações da PNAD Contínua iremos utilizar um modelo de espaço de estado para mensalização da série de média móvel trimestral. Diante disso, neste texto, analisaremos as informações das séries com e sem ajuste sazonal, junto aos níveis da PNAD Covid-19, como mostrado no Gráfico abaixo.


Fonte: Elaboração dos autores com dados da PNAD
Contínua mensalizada e da PNAD Covid

O gráfico acima mostra níveis razoavelmente deslocados entre as séries mensais da PNAD Contínua e da PNAD Covid-19, que, no entanto, têm tendência semelhante, de modo que podemos afirmar que a segunda tem capacidade de antecipar as variações da primeira. Como podemos ver, a taxa de desocupação mostrou uma tendência de alta entre os meses de maio e agosto em ambas as pesquisas, além de uma nova alta registrada na PNAD Covid-19 em setembro. Como tal indicador é resultado de movimentos na população ocupada e na força de trabalho, essas variáveis são apresentadas abaixo, em ambas as pesquisas.

 
Fonte: Elaboração dos autores com dados da PNAD Contínua mensalizada e da PNAD Covid

Podemos notar que, após o início da pandemia, houve forte retração do emprego no país. Com níveis semelhantes nos primeiros dois meses em 2020, a população ocupada no Brasil apresentou forte queda entre fevereiro e julho, passando de 93 milhões para pouco mais de 80 milhões, respectivamente. Por outro lado, no mesmo período, a força de trabalho, composta por adultos ocupados e procurando ocupação, também caiu fortemente, de quase 106 milhões para 94 milhões. Portanto, enquanto 13 milhões de ocupações foram perdidas, 12 milhões de trabalhadores saíram da força de trabalho – sendo a diferença de cerca de um milhão correspondente ao crescimento do número de desocupados no país.

Por outro lado, entre julho e agosto de 2020, a PNAD Contínua apresentou pequena alta tanto no número de desocupados quanto na força de trabalho, mostrando o início de possível processo de retomada do mercado de trabalho. A PNAD Covid-19, em sua edição mensal, apresenta níveis e tendências muito semelhantes aos da PNAD Contínua, tanto em sua queda quanto na recuperação, que antecedem uma nova variação positiva em setembro.

Como os gráficos acima não mostram qualquer ajuste sazonal nas séries, parte das variações ao longo dos meses pode ter se dado por fatores atribuídos a movimentos naturais de todo mês. Já o gráfico abaixo mostra a variação mensal com ajuste sazonal da população ocupada na PNAD Contínua mensalizada, a partir da separação do emprego com base nas seguintes categorias de ocupação: formais (empregados com carteira assinada, no setor público, empregadores e trabalhadores por conta própria com CNPJ) e informais (empregados sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria sem CNPJ e trabalhadores auxiliares familiares).


Fonte: Elaboração dos autores com dados da PNAD Contínua mensalizada

Como se vê acima, variações negativas no emprego se concentraram principalmente no setor informal entre março e junho – ainda que os postos também tenham caído no setor formal, porém com menos intensidade. Por outro lado, o emprego no setor informal já mostrou uma pequena recuperação no mês julho de 2020, se repetindo em agosto, quando o emprego formal também passou a crescer em relação ao mês anterior. Estas informações sugerem uma recuperação mais rápida do emprego no setor informal, que foi também o que apresentou maiores quedas durante o pior momento da pandemia.

Também a partir dos dados mensalizados com ajuste sazonal, o gráfico abaixo separa o número de ocupados por posição na ocupação ao longo dos meses. As informações são apresentadas em relação ao seu nível de fevereiro, com base 100, tendo, portanto, visualização semelhante à do trabalho de Hecksher (2020b).


Fonte: Elaboração dos autores com dados da Pnad Contínua mensalizada

O Gráfico acima mostra que trabalhadores no setor público e que trabalham por conta própria com CNPJ mostraram pouco resultado negativo após fevereiro – começando, no entanto, a cair a partir de junho. Por outro lado, empregados com carteira assinada e conta própria sem CNPJ mostraram intensas quedas, com o segundo grupo tendo caído mais no início da pandemia, mas com recuperação mais forte, de modo que, em agosto, ambos apresentam um nível equivalente a cerca de 88,5% do de fevereiro. Além disso, empregadores e empregados domésticos com carteira apresentaram quedas ainda mais intensas, tendo o segundo grupo um nível ainda menor em relação ao de fevereiro (78%), com nenhuma dessas séries apresentando clara recuperação até o último mês. Por fim, trabalhadores sem carteira assinada foram os que mostraram maior queda, com recuperação nos últimos dois meses, mas em um nível ainda 25% abaixo do registado em fevereiro.

O recuo da demanda por trabalho durante a pandemia, no entanto, não se manifestou apenas por uma redução do número de ocupados. O fator trabalho, em uma função de produção, é composto pelas horas totais trabalhadas, obtida a partir do produto entre a população ocupada e a jornada média. A divulgação mensal da PNAD Contínua, com dados referentes ao trimestre móvel, não apresenta informações de hora trabalhadas. Além disso, a PNAD Covid-19 Mensal iniciou-se em maio, o que impede a comparação de tendências em relação ao período anterior à pandemia. Desse modo, apenas nos microdados da PNAD Contínua trimestral é possível mensurar a queda na demanda de trabalho durante a pandemia. As informações presentes na tabela abaixo mostram estes resultados.

2o tri

Horas efetivamente trabalhadas (bilhões mensais)

PO (milhões)

Jornada Média Efetiva (semanal)

2019

14,13

93,34

37,86

2020

10,23

83,35

30,69

Diferença

-27,6 %

-10,7 %

-18,9 %

Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad Contínua

Como podemos ver, o número de horas trabalhadas no segundo trimestre em 2020 era 27,6% menor do que o do mesmo período em 2019. A queda da população ocupada, de 10,7%, foi, portanto, responsável por apenas 1/3 da redução total do fator trabalho na economia, enquanto os outros 2/3 foram resultado da jornada média, que recuou cerca de  18,9% no segundo trimestre de 2020, quando comparado com o mesmo trimestre do ano anterior.

Como se nota, tanto a redução da jornada média quanto a queda da força de trabalho tiveram papel de atenuar a alta da taxa de desocupação, indicador mais utilizado ao analisar as tendências do mercado de trabalho, frente ao grande encolhimento da demanda por trabalho na economia. O gráfico abaixo simula qual teria sido o nível do desemprego caso cada fator e ambos em conjunto tivessem permanecido constantes em relação à 2019.


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad Contínua

Os resultados indicam que que, enquanto a taxa de desocupação cresceu de 12,03% para 13,3% entre o segundo trimestre de 2019 e 2020, ela poderia ter chegado a mais de 36%, ou seja, mais de 1/3 da força de trabalho, caso a força de trabalho e a jornada média não tivessem tido mudanças, com uma queda das horas trabalhadas registradas no período de -27,6%. Também é mostrado que o desemprego teria sido maior com uma manutenção da jornada média em relação à força de trabalho, indicando a maior importância da redução dessa primeira para a atenuação do aumento da taxa de desocupação.

O gráfico abaixo, por sua vez, mostra que, no segundo trimestre de 2020, grande parte da queda da jornada de trabalho média, quanto da própria renda, em relação ao ano anterior, adveio de um grande aumento do número de trabalhadores afastados, que trabalharam zero hora, cujo crescimento, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, passou de 1%, no segundo trimestre de 2019, para cerca de 6,5% no segundo trimestre de 2020. A alta do número de trabalhadores que não receberam rendimentos, que passou de 1% no segundo trimestre de 2019 para cerca de 2,5% no segundo trimestre de 2020, foi atenuada por ganhos informais, além de benefícios do Governo Federal, tal como o Programa de Proteção à Renda e Emprego (BEm).


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad Contínua

A PNAD Covid-19, por sua própria estrutura, apresenta dados mais detalhados de afastamento. O gráfico abaixo mostra a população em idade de trabalhar por status no mercado de trabalho, incluindo afastamento devido ou não à pandemia, com e sem remuneração.


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad-Covid

Como pode ser observado no gráfico acima, em maio de 2020, mais de 15 milhões de trabalhadores estavam ocupados, mas afastados de seu trabalho devido à pandemia, dos quais mais de 6,8 milhões com remuneração e quase 8,9 milhões sem. Por outro lado, em julho, tais números eram de, respectivamente, 4,2 e 2,6 milhões, enquanto em setembro eram de 2,4 milhões (em grande parte correspondentes aos que ainda ganhavam benefícios referentes ao BEm) e apenas 575 mil, mostrando sustentada queda dos trabalhadores afastados, principalmente sem remuneração.

Com a redução do afastamento, a PNAD Covid-19 mostrou expressiva recuperação das horas efetivamente trabalhadas em relação ao nível habitual anterior à pandemia. Enquanto em maio, em média, os trabalhadores tiveram uma jornada média mais de 30% abaixo da habitual – chegando a 38% para informais – em setembro tal diferença chegou a 12% (14% para informais).


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad-Covid

Como seria de se esperar, a renda do trabalho também voltou a se elevar a partir de junho, com maiores variações no setor informal, saindo de 63% da renda habitual em maio para cerca de 81% em setembro. Os dados também sugerem que o rendimento no setor público foi pouco afetado durante a pandemia. Em relação ao agregado do emprego, a proporção entre o rendimento efetivo e habitual foi de 82% em maio para 91% em setembro, confirmando o cenário de retomada da renda.


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad-Covid

O Gráfico abaixo, por fim, mostra a trajetória da renda efetiva média de todos os trabalhadores combinando a PNAD Contínua mensalizada com a PNAD Covid-19, tal como nos Gráficos 1 a 3. Os primeiros meses do ano, referentes à primeira pesquisa apenas, mostram queda expressiva de tal indicador, de mais de R$ 2500 mensais para menos de R$ 2300 mensais em maio – com a queda explicada principalmente pelas horas trabalhadas, como mostrado na seção Em Foco do Boletim de setembro. Além disso, ambas pesquisas mostram alta desse indicador nos meses seguintes.


Fonte: Elaboração dos autores com base na Pnad-Covid

Essa seção mostrou que o mercado de trabalho, após grande queda de horas trabalhadas e renda média, ensaia uma recuperação nos últimos meses. O número de ocupados informais, que teve a redução mais intensa, começou a apresentar crescimento positivo, na margem, já no mês de julho, e teve nova alta ainda maior em relação aos formais, que apresentaram variação positiva no último registro. No entanto, o nível de ocupados de alguns segmentos ainda se mostra mais de 25% abaixo do nível observado em fevereiro na série com ajuste sazonal, evidenciando, assim, o desafio da recuperação do mercado de trabalho para os próximos meses.


Referência

Hecksher, Marcos. Valor Impreciso por Mês Exato: Microdados e Indicadores Mensais Baseados na PNAD Contínua. Nota Técnica 62. IPEA. 2020.

Relatório de Inflação. Estimativa para dados “mensalizados” da PNAD Contínua. Volume 22, nº 2. Banco Central do Brasil. 2020.

Esse artigo foi publicado no Boletim Macro Ibre de novembro de 2020.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Comentários

Anônimo
Não vi nada sobre o futuro no mercado de trabalho

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