No período 2011-18, mais de 90% dos países do mundo apresentaram crescimento econômico maior que o do Brasil

09/05/2019

Ano passado, escrevi um artigo aqui mesmo, no Blog do IBRE, “Desempenho da economia brasileira em comparação com o resto do mundo”, com os dados do World Economic Outlook do FMI de abril de 2018. Com a recente divulgação do relatório semestral do panorama da economia mundial de abril de 2019, bem como suas projeções para diversas variáveis econômicas até 2024, vou atualizar o artigo passado, bem como fazer uma análise por décadas.[1]  

De acordo com o FMI, o PIB mundial deve crescer esse ano 3,3%, em termos reais, sendo que os países avançados devem se expandir 1,8%, enquanto que os emergentes, 4,4%. Da amostra total de 194 países, 20% são economias avançadas e 80% emergentes.

O FMI projeta um crescimento esse ano para o Brasil de 2,1%, acima das projeções do IBRE/FGV (1,8%) e da mediana das expectativas do mercado, de acordo com o boletim Focus (1,5%). Para 2020, o Fundo prevê um crescimento de 2,5%, em linha com a mediana das expectativas de mercado.

Para prazos mais longos, a média de crescimento do PIB do Brasil, em termos reais, no período 2019-2024, é de 2,2%, segundo o FMI. A mediana do boletim Focus indica um crescimento médio de 2,3% no período 2019-2023. Já a projeção para o crescimento mundial do FMI é de 3,6% na média 2019-2024, bem acima das projeções para o Brasil.

A recessão brasileira, que durou do segundo trimestre de 2014 até o quarto trimestre de 2016, de acordo com o Codace, apresentou duas quedas reais do PIB em 2015 e 2016, sendo o pior biênio de crescimento econômico em mais de 100 anos (a outra vez que o PIB brasileiro recuou por dois anos consecutivos foi em 1930 e 1931, logo após a Crise de 29). Além disso, a recuperação pós-recessão tem sida lenta e gradual, com um crescimento de apenas 1,1% tanto em 2017 quanto em 2018. O último quadriênio apresentou uma queda real do PIB de 1,2%, ao ano, em média.

Mais uma evidência da dimensão da grave crise brasileira, que foi muito mais doméstica do que internacional, pode ser observada no Gráfico 1, que mostra a proporção de países com crescimento real do PIB maior do que o Brasil desde 2014 (primeiro ano da recessão) até as projeções para esse ano. O Gráfico 2 é análogo ao primeiro, só que com a quantidade de países que cresceram mais que o Brasil nesse mesmo período. A amostra do FMI com dados disponíveis é de 193 países.

No biênio 2015-16 de crescimento negativo (-3,5% e -3,3%, respectivamente), mais de 90% dos países apresentaram um desempenho econômico melhor que o nosso. Vale frisar que o Brasil é muito mais relevante, em termos econômicos, do que os demais países com desempenho pior desse “ranking”, que contam com países como Líbia, Guiné Equatorial, Venezuela, entre outros.

Tanto em 2017 quanto 2018, os dois primeiros anos pós-recessão, a situação melhorou um pouco, mas ainda assim o desempenho do Brasil foi fraco, em relação ao resto do mundo, já que a atividade econômica de 84% dos países cresceu mais que o PIB brasileiro. Para esse ano, as projeções do boletim Focus (1,5%), IBRE (1,8%) e FMI (2,1%) indicam que entre 74% e 82% do resto do mundo crescerá mais que o Brasil.

Como já amplamente divulgado, a recessão que o país passou foi muito forte, possivelmente a pior década de crescimento econômico dos últimos 120 anos. Nos últimos quatro anos, o PIB brasileiro recuou, 1,2% ao ano, em termos reais, algo sem precedentes na história brasileira.

Possivelmente essa também será a pior década na comparação internacional, pelo menos desde a década de 1980, quando se inicia a série do FMI. Segundo dados do FMI, 91% dos países do mundo (174 países dentro de uma amostra total de 191 países) apresentaram um resultado, em termos de crescimento econômico, melhor do que o Brasil no período 2011-2018. Considerando as projeções do WEO / FMI para 2019 e 2020, na década atual, 90% dos países teriam apresentado um crescimento real do PIB maior do que o brasileiro. Nas décadas de 1980 e 1990, por volta de 70% dos países cresceram mais do que o Brasil, e na década dos anos 2000, o número foi de 56%, conforme o Gráfico 3.

Nas Tabelas 1 e 2, há as taxas médias reais de crescimento do PIB, bem como a diferença entre o dado brasileiro e o PIB do mundo, dos emergentes e da AL e Caribe. Observa-se que a década atual (2011-2020, considerando as projeções do FMI para 2019 e 2020), apresentou o maior gap entre o Brasil e o mundo, bem como na comparação com os emergentes. Em relação à América Latina e Caribe, foi a maior diferença nessa década e na década de 1990, sendo que no passado, tanto o crescimento brasileiro quanto latino-americano foram bastante superiores aos atuais

O mesmo ocorre para o PIB per capita (US$, PPP). Possivelmente essa também será a pior década na comparação internacional, já que 85% dos países do mundo (162 países dentro de uma amostra total de 191 países) apresentaram um crescimento do PIB per capita (US$, PPP) melhor do que o Brasil no período 2011-2018. Considerando as projeções do WEO / FMI para 2019 e 2020, na década atual, 84% dos países teriam apresentado um desempenho melhor do que o brasileiro. Nas décadas de 1980 e 1990, por volta de 65 / 70% dos países cresceram mais do que o Brasil, e na década dos anos 2000, o número foi de 45%, conforme o Gráfico 4.

O grande problema macroeconômico do Brasil hoje em dia é o fiscal. Após 16 anos de superávit primário (1998-2013), a partir de 2014 o país passou a apresentar déficit primário. Já são cinco anos consecutivos que o país gasta mais do que arrecada, excluindo os juros. Com isso, a dívida bruta (em proporção do PIB) subiu fortemente. A média da dívida entre 2006 e 2013 foi de 55%, e, a partir de 2014, a dívida cresceu até chegar aos 78% atualmente. Por isso que a reforma da previdência é tão importante para o futuro do país, já que as despesas previdenciárias correspondem a grande parte das despesas primárias da União, sendo isso também um problema dos Estados e Municípios.

A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia divulgou um relatório “Efeito da reforma da previdência no crescimento do PIB” com dois cenários (com reforma da previdência e sem reforma). No primeiro cenário, de acordo com as projeções da SPE/ME, a média de crescimento do PIB brasileiro no período 2019-2023 seria de 3,0%, ao ano. Caso contrário, o país voltaria a recessão em 2021, e a média de crescimento nesses cinco anos (2019-2023) seria de queda de 0,5%, em média, ao ano. Então, reverter esse grave problema fiscal é de fundamental importância para o Brasil voltar a crescer mais, e com isso, reverter o cenário de desemprego alto.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[1] Ver também: Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia - Nota Informativa: “Comparando o crescimento do PIB nas décadas de 1980 e atual”.

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