O avanço da pandemia da Covid-19 amplia a incerteza sobre os dados de PTF no Brasil.

16/10/2020

Os eventos dos últimos meses associados à pandemia da Covid-19 elevaram de forma extraordinária o nível de incerteza em relação ao desempenho da economia e têm provocado impactos negativos sobre a atividade econômica, o mercado de trabalho e, consequentemente, sobre a produtividade de vários países.[1]

Uma das medidas amplamente utilizadas é a produtividade do trabalho, que consiste no Valor Adicionado gerado por trabalhador ou por hora trabalhada. Esta variável, no entanto, não permite avaliar o grau de eficiência com que são utilizados os recursos produtivos. Um indicador que permite esta análise é a produtividade total dos fatores (PTF), que leva em consideração não somente a produtividade da mão-de-obra, mas também a eficiência do uso de capital.

Recentemente, o Federal Reserve Bank (FED) de São Francisco divulgou os resultados da produtividade total dos fatores dos Estados Unidos referentes ao segundo trimestre de 2020. Os dados indicaram que, em termos anualizados, a PTF caiu 18,3% no segundo trimestre em comparação com o primeiro. Uma medida de PTF que faz um ajuste em função da redução do grau de utilização dos fatores de produção (-17,6% em termos anualizados) revelou uma queda bem menor da PTF de 0,7% na mesma base de comparação.

No Brasil, embora existam estimativas da PTF em frequência anual, não existem informações públicas com frequência trimestral. Com base na divulgação recente das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua, por parte do IBGE, bem como da Sondagem da Indústria, pelo IBRE/FGV, foi possível construir o indicador de PTF de periodicidade trimestral, que permite uma análise conjuntural deste que é o principal motor do crescimento econômico.[2]

Desde o último trimestre temos divulgado estatísticas de PTF usando como insumo do fator trabalho tanto o número de pessoas ocupadas quanto o total de horas trabalhadas. Esta última medida considera a informação sobre o total de horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações, obtido da PNAD Contínua, que tem como referência uma semana em que não haja situações excepcionais que alterem a duração rotineira do trabalho, ou seja, uma semana típica de trabalho.[3]

A PNAD Contínua também fornece informações sobre as horas efetivamente trabalhadas na semana de referência, que pode incluir reduções por motivo de doença, feriado, falta voluntária, atraso ou por outra razão, bem como aumentos por conta de pico de produção e compensação de horas não trabalhadas em outro período.

Até o início da pandemia, os resultados obtidos a partir das duas medidas de horas trabalhadas eram semelhantes. No entanto, em função das medidas de distanciamento social necessárias para conter os efeitos da pandemia, desde o primeiro trimestre[4] os dados da PNAD Contínua passaram a revelar um descolamento entre as duas medidas de horas trabalhadas, o qual foi particularmente forte no segundo trimestre, com redução muito mais pronunciada das horas efetivamente trabalhadas que das horas habitualmente trabalhadas e do pessoal ocupado.[5]

Além da disrupção observada no mercado de trabalho, a pandemia da Covid-19 também provocou um forte descolamento entre o crescimento do Valor Adicionado e do estoque de capital em uso, que é o segundo fator de produção utilizado para o cálculo da PTF, tal como apresentado no Gráfico 1.[6]

Gráfico 1: Taxa de crescimento do Valor Adicionado e do estoque de capital em uso – (Em % e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior) – Brasil

O Gráfico 1 mostra que, apesar da volatilidade do estoque de capital em uso, o seu crescimento e o do Valor adicionado sempre estiveram próximos até o quarto trimestre de 2019. No entanto, com o início da pandemia da Covid-19 no primeiro trimestre de 2020, esse cenário começou a mudar. No primeiro trimestre de 2020, por exemplo, o Valor Adicionado apresentou uma queda de 0,2% e o estoque de capital em uso cresceu 2,7% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Já no segundo trimestre, o descolamento foi ainda mais dramático, com queda no estoque de capital em uso (-17,1%) muito maior que a redução do Valor Adicionado (10,8%). Esta discrepância foi a maior já observada ao longo da série histórica e está relacionada ao recuo, para níveis historicamente baixos, do nível de utilização da capacidade instalada (NUCI).[7]

Essas profundas transformações na economia têm elevado a incerteza acerca dos indicadores de produtividade no Brasil, sugerindo assim a necessidade de uma análise abrangente das medidas de produtividade durante este período de pandemia.

O Gráfico 2 mostra a taxa de crescimento da PTF, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, desde o primeiro trimestre de 2013, considerando as várias medidas do fator trabalho. O estudo completo, contendo a análise sobre os diversos indicadores de PTF no Brasil pode ser acessado através do site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.


[1] Um estudo recente do Banco Mundial dedicado à análise do comportamento da produtividade em eventos muito adversos, como guerras, crises financeiras e desastres naturais, como epidemias e pandemias, mostrou impactos negativos na PTF, com estimativas de queda de 8% três anos após crises epidemiológicas severas como a atual pandemia. A produtividade seria afetada principalmente pela redução de investimentos, devido ao aumento da incerteza, e pelos impactos negativos sobre a oferta de trabalho (por conta de incapacitação devido à doença e aumento do número de fatalidades), sobre o funcionamento do mercado de trabalho (em função da disrupção decorrente de medidas de distanciamento social) e sobre a acumulação de capital humano (por causa do fechamento de escolas). O Banco Mundial aponta, ainda, dois fatores que podem mitigar a queda da produtividade devido à Covid-19. O primeiro está associado ao fato de que tecnologias que se disseminaram durante o período da pandemia podem aumentar de forma permanente a eficiência em diversas empresas ou setores. O segundo fator é que, diante dos desafios colocados à retomada do crescimento, é possível que a pandemia tenha o efeito de estimular reformas do ambiente de negócios. O estudo pode ser acessado pelo link a seguir: http://pubdocs.worldbank.org/en/394411593465307419/Global-Productivity-Chapter-3.pdf

[2] As séries trimestrais de PTF e de produtividade do trabalho estão disponíveis no site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade. No site também se encontram disponíveis notas metodológicas que descrevem a construção dos indicadores trimestrais de produtividade do trabalho e PTF.

[3] O total de horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações corresponde ao produto da jornada média pelo número de pessoas ocupadas.

[4] Na nota que divulgamos referente aos resultados da produtividade do trabalho no primeiro trimestre já havíamos chamado atenção para a queda mais forte das horas efetivas em comparação com as horas habituais em função dos efeitos iniciais da pandemia no mercado de trabalho. O texto pode ser acessado através do link: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/indicadores_trimestrais_de_produtividade_do_trabalho_-_1t2020_final.pdf

[5] No segundo trimestre de 2020, as quedas do emprego, das horas habitualmente trabalhadas e das horas efetivamente trabalhadas em relação ao segundo trimestre de 2019 foram de 10,7%, 10,5% e 27,6%, respectivamente. Este ponto foi discutido em detalhe na nota que divulgamos recentemente sobre os indicadores de produtividade do trabalho referentes ao segundo trimestre, que  pode ser acessada no link: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/indicadores_trimestrais_de_produtividade_do_trabalho_-_final.pdf

[6] O estoque de capital em uso é obtido a partir do produto entre o estoque de capital e o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria de transformação calculada pelo IBRE/FGV, e usada em nosso exercício como proxy para o nível de utilização total da economia.

[7] A queda de 18,1% da NUCI no segundo trimestre de 2020, em relação ao segundo trimestre de 2019, foi a pior já observada ao longo da série histórica que retropolamos até 1981, reduzindo ainda mais o nível do indicador que já estava num patamar relativamente baixo desde 2014. A piora da NUCI ocorreu principalmente diante da necessidade de isolamento social e do fechamento de estabelecimentos na tentativa de conter a propagação do coronavírus.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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