O hiato do produto 1980-2020: ampliando a análise

15/06/2020

Este é mais um Relatório de divulgação do Hiato do Produto calculado pela Superintendência de Estatísticas Públicas do FGV IBRE que tem sido usualmente disponibilizado trimestralmente neste blog do IBRE. Nessa edição o cálculo do hiato pela função de produção foi ampliado para abranger os setores Industrial e de Serviços, além de possibilitar o cálculo da Produtividade Total de Fatores (PTF) destas atividades. Essa ampliação e algumas sofisticações, decorrentes desse novo cálculo, deram margem a um novo texto, publicado no site da FGV, intitulado “Output Gap - Analysis of GDP and its activities for Brazil (1980-2019)”, contendo a nova metodologia, que foi submetido e aceito para ser apresentado na 35ª  CIRET Conference em Poznań/Polônia, em 16 -18 de setembro de 2020.

 A importância da medição do hiato do produto deve-se a sua utilidade na formulação e condução de políticas econômicas, mais acentuadamente em momentos de crise, como o atualmente vivenciado na economia brasileira. Em linhas gerais este indicador mostra a diferença entre o crescimento econômico (produto efetivo) e o quanto a economia poderia estar crescendo (produto potencial), indicando momentos de aquecimento econômico quando o produto efetivo cresce acima do potencial e momentos de ociosidade quando a evolução do PIB está abaixo do seu potencial. Além da apresentação do hiato, é feita a decomposição da contribuição de cada fator de produção.

O HIATO DO PRODUTO TOTAL (PIB)

No primeiro trimestre de 2020 o hiato do produto calculado pelo método da função de produção apresentou resultado de -4,7%, voltando a apontar tendência de abertura, quando no período anterior havia apresentado um resultado menos negativo (-4,2%), que indicava, embora lentamente, trajetória de fechamento.

Gráfico 1: Hiato do Produto – Função de Produção

                         Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

A partir da Função de Produção é possível analisar a decomposição da contribuição de cada fator de produção e da PTF. O Gráfico 2 retrata esta decomposição do produto efetivo para toda a série e também desagregado por períodos.

O crescimento médio do PIB de 2,4% ao ano, na análise da série histórica desde 1985 teve como contribuição principal o fator trabalho (1,1 p.p.) enquanto as contribuições do capital e da PTF foi de 0,6 p.p. e 0,7 p.p., respectivamente.

No entanto, cabe analisar os períodos de forma desagregada devido as oscilações das taxas de crescimento. O período de maior crescimento médio do PIB foi o de 2001-2010 (3,7% em média ao ano), com forte contribuição do capital (1,4 p.p.). O período mais desastroso da análise é o mais recente, compreendido entre 2011-2020.1, com a PTF contribuindo negativamente (-0,1 p.p.), o trabalho com apenas 0,4 p.p. e o capital com 0,3 p.p.

Gráfico 2: Decomposição do PIB efetivo – Médias anuais – Contribuição em p.p.

                        Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

No Gráfico 3, abaixo, o produto potencial é decomposto nas mesmas contribuições (fator trabalho, insumo capital e PTF). Nota-se que o período mais recente, 2011-2020.1 é o que teria, potencialmente, menores condições de crescimento. No entanto, a diferença entre o crescimento médio potencial (1,4% ao ano) e efetivo do período (0,5% ao ano) foi o que apresentou a maior divergência entre os dois resultados, indicando a maior abertura negativa do hiato. Essa discrepância é explicada principalmente pela contribuição do insumo capital que potencialmente poderia ser três vezes maior do que o efetivamente verificado. O fator trabalho, também contribuiu no PIB efetivo 0,1 p.p. a menos do que no produto potencial

Gráfico 3: Decomposição do PIB potencial – Médias anuais – Contribuição em p.p.

                                 Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

A evolução da Produtividade Total dos Fatores (PTF) mostra que ela vem em declínio desde o fim de 2010 inicia recuperação a partir do primeiro trimestre de 2016 com o fim da recessão, mas voltou a declinar a partir do final de 2017 e apresenta crescimento de 0,7% no primeiro trimestre de 2020, com tendência de queda em relação ao trimestre anterior.

Gráfico 4: PTF (% - acumulada em 4 trimestres)

             Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

O HIATO DO PRODUTO POR ATIVIDADE ECONÔMICA

Indústria

A atividade industrial, que compreende as atividades de: (i) indústrias extrativas, (ii) indústrias de transformação, (iii) eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e, (iv) construção, é considerada um dos motores do crescimento da economia, pela característica de impulsionar outros setores de atividade. Por este motivo, apresenta comportamento muito semelhante ao do hiato do produto total, conforme apresentado no Gráfico 5. No período mais recente o hiato da indústria voltou a ter tendência a ampliar e atingiu o hiato de -6,4%, contra os -6,1 do trimestre anterior.

Gráfico 5: Hiato do Produto – Função de Produção: Indústria e PIB

                  Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

A PTF do setor industrial segue em trajetória estável, tendo apresentado no 1º trimestre de 2020 crescimento de 2,2% na taxa acumulada em quatro trimestres.

Gráfico 6: PTF da Indústria (% - acumulada em 4 trimestres)

                 Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

A decomposição do crescimento do valor adicionado efetivo e potencial da indústria segue a mesma tendência apresentada para a economia total, com o produto potencial crescendo mais que o efetivo no período mais recente e com maior contribuição do insumo capital (no caso do produto potencial).

Gráficos 7 e 8: Decomposição do crescimento médio do valor adicionado
da indústria por década – Médias anuais e contribuição em p.p.

Valor Adicionado Efetivo                                      Valor Adicionado Potencial

Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

Serviços

A atividade de serviços considerada para cálculo do hiato é composta pelas atividades de: (i) comércio, (ii) transporte, armazenagem e correio, (iii) informação e comunicação e (iv) outras atividades de serviços.

No 1º trimestre de 2020 a atividade apresentou hiato mais positivo que o da economia total, indicando maior proximidade entre o produto efetivo e seu potencial. A série de hiato da atividade de serviços e do PIB são altamente correlacionadas, o que é explicável pelo fato de que os Serviços participam com quase 70% do PIB.

Gráfico 9: Hiato do Produto – Função de Produção: Serviços e PIB

                                Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

A PTF do setor de Serviços apresentou início de recuperação a partir do fim da recessão no primeiro trimestre de 2016 e tem se mantido em níveis positivos. No último trimestre analisado, chegou a 1% na taxa acumulada em quatro trimestres.

Gráfico 10: PTF do setor de Serviços (% - acumulada em 4 trimestres)

                  Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

Analisando a decomposição das contribuições dos fatores, nota-se que da mesma forma que para o total da economia e para Industria, o crescimento potencial de Serviços na última década foi maior que o crescimento efetivo, com maior contribuição do insumo capital.

Gráficos 11 e 12: Decomposição do crescimento médio do valor adicionado
dos serviços por década – Médias anuais e contribuição em p.p.

Valor Adicionado Efetivo                                      Valor Adicionado Potencial

 Fonte: Elaboração própria a partir de fontes diversas.

NOTA EXPLICATIVA SOBRE O HIATO DO PRODUTO CALCULADO PELA SUEP FGV IBRE

A equipe do Núcleo de Contas Nacionais (NCN) do FGV IBRE tem publicado trimestralmente, no blog do IBRE, o hiato do produto brasileiro para o total da economia e recentemente também por atividade econômica. Este esforço levou a confecção do texto “The Brazilian Output Gap, 1980-2019” apresentado no 34º Encontro do CIRET/OCDE em 13 de novembro de 2019, em Paris, que contém a metodologia para o cálculo do hiato do produto e de algumas atividades econômicas até o terceiro trimestre de 2019 (na versão apresentada no CIRET).

Alguns avanços metodológicos possibilitaram o cálculo do hiato do produto pela função de produção para as atividades industriais e de serviços, bem como da produtividade total dos fatores para essas atividades. Essa ampliação e algumas sofisticações, decorrentes desse novo cálculo, deram margem a um novo texto, publicado no site da FGV, contendo as novas metodologias intitulado “Output Gap - Analysis of GDP and its activities for Brazil (1980-2019)”, submetido e aceito para ser apresentado na 35ª  CIRET Conference em Poznań/Polônia, em 16 -18 de setembro de 2020.

Tendo em vista a falta de um indicador público, dessa amplitude, do FGV IBRE, decidiu-se fazer a divulgação preliminar desta informação pelo Monitor do PIB-FGV produto do NCN do FGV IBRE. Assim sendo, além do blog do IBRE, passou a constar no Monitor do PIB o resultado da estimativa do hiato do produto, pela função de produção para o total da economia no trimestre de referência, antes de divulgação do PIB trimestral do IBGE.

Para a utilização do método da função de produção, é necessário se ter informações a respeito do estoque de capital das atividades. Para isto foi realizada ampla pesquisa sobre os investimentos das atividades econômicas, fundamentada nas pesquisas econômicas anuais do IBGE (PIA, PAC, PAS, PAIC). Esta pesquisa deu origem ao texto preliminar “O que é Investimento” com séries de investimento desde 1997. Para informações de ocupação foram utilizadas informações das Contas Nacionais e da PNAD. Para informações do produto efetivo foram utilizadas as informações das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE e do Monitor do PIB FGV. A metodologia completa está disponível no site da FGV.

Outra forma utilizada para cálculo do produto potencial, da economia e das atividades econômicas, é a “média das métricas estatísticas”, que não foi aqui elaborada. Consiste na média do resultado do produto potencial pelos cálculos de extração de tendências lineares, quadráticas e exponenciais, pela média móvel de 4 e 8 períodos e pelo filtro HP. Como característica de métodos estatísticos, as caudas das séries ficam distorcidas. Para evitar esse tipo de viés é feito o controle de borda, adicionando às series originais projeções de vários trimestres a frente, para o viés de distorção afetar as caudas projetadas e não o período de interesse de análise (o vigente). Como as projeções dos próximos trimestres acusaram taxas de retração elevadas (-14 % para o segundo trimestre de 2020, por exemplo), os métodos estatísticos distorcem as séries para trás, causando distorção no momento de extração do hiato do produto, que por vezes pode não refletir a realidade, por não constar em seus cálculos informações sobre a estrutura da economia. Por essa razão evitou-se aqui tal exercício.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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