O hiato do produto de 2020

31/03/2021

Introdução

Neste texto foram atualizadas as informações referentes aos hiatos do PIB, da indústria (extrativa mineral e transformação) e dos serviços (comércio, transportes, serviços de informação e outros serviços). Para as três atividades, o hiato reduziu-se, diminuindo assim a capacidade ociosa para -3,8%, no caso do PIB; -4,9%, para a indústria; e -2%, para serviços.

Isso quer dizer que teria havido um repentino e forte aumento da produção efetiva, caracterizando um choque de demanda? Ao longo do texto, busca-se responder que foi o oposto: uma forte redução do produto potencial, principalmente devido à contração do trabalho potencial, provavelmente devido ao desemprego e ao aumento dos desalentados da PEA.

O hiato do PIB

O hiato do produto fechou o quarto trimestre de 2020 em -3,8%, conforme ilustrado no Gráfico 1. Após atingir seu ponto mínimo no segundo trimestre de 2020 (-13,8%), como reflexo do choque econômico causado pela pandemia, nos dois trimestres seguintes houve recuperação do PIB, do nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) e dos indicadores de mercado de trabalho, fechando, portanto, a diferença entre o produto efetivo e seu potencial.


 Fonte: IBGE e elaboração própria

Esse fechamento ocorre principalmente pela queda do produto potencial. No Gráfico 2 abaixo verifica-se que o produto potencial cresce celeremente desde o início da série em 1982, com uma média de 0,71% das taxas trimestrais até o início da recessão de 2014; a partir daí, a média das taxas trimestrais se reduz para 0,07%, culminando com média de -0,57% durante o ano de 2020.


Fonte: IBGE e elaboração própria

No Gráfico 3 é possível ver, em taxas acumuladas em 4 trimestres, a decomposição do crescimento do produto potencial. O capital contribui negativamente desde o final de 2016, depois de contribuir positivamente durante os dez anos anteriores. A queda de 2020 se deve à contribuição negativa dos três fatores de produção, mas principalmente da produtividade total dos fatores (PTF).    É notável, historicamente, a forte contribuição do fator trabalho, sempre contribuindo positivamente para o crescimento do produto potencial. Desde 2016, com a chegada da recessão, é possível notar a contribuição negativa do capital.


Fonte: IBGE e elaboração própria

Houve recuperação da PTF, que, a partir da chegada da pandemia, havia interrompido sua tendência de crescimento que ocorria desde 2015. Nos último trimestres de 2020, entretanto, ela retomou sua trajetória ascendente, conforme observado no Gráfico 4, sem, contudo, contribuir positivamente para o crescimento do produto potencial, como foi visto no Gráfico 3 acima.


 Fonte: IBGE e elaboração própria    

O Gráfico 5, abaixo, apresenta as informações da evolução das contribuições dos insumos do produto potencial e do efetivo, em médias anuais, para diferentes períodos. A PTF contribui negativamente para o crescimento do produto durante a década de 1980 e a recém terminada de 2010.


Fonte: IBGE e elaboração própria

O Gráfico 6 abaixo explora a importância do trabalho potencial na redução do produto potencial do PIB. A série do hiato do PIB inicia-se em 1982, sendo possível observar a evolução do trabalho potencial em 153 taxas de variação trimestrais; delas, apenas 28 são negativas, com média de -0,5%. A taxa de variação trimestral média do período é de 0,6%, sendo possível identificar três fases: a do início da série em 1983 até o quarto trimestre de 2009, quando a média da taxa de variação foi de 0,7% ao trimestre; a segunda fase em que o trabalho potencial fica estagnado até o primeiro trimestre de 2012 e volta a crescer à taxa de 0,3% na média ao trimestre; para então cair 8% no quarto trimestre de 2020. Isso foi o maior fator de influência para a abrupta redução do produto potencial do PIB. Esse fator está provavelmente associado ao desemprego decorrente da pandemia e ao forte aumento dos desalentados da PEA.


Fonte: IBGE e elaboração própria

O hiato do produto industrial     

Ao analisar o hiato da indústria (extrativa mineral e transformação), ilustrado no Gráfico 7, é possível notar que essa atividade encontra- se ainda mais afastada do seu potencial do que o total da economia, ao registrar no quarto trimestre de 2020 um hiato de -4,9%. Nota-se que a produção industrial esteve historicamente abaixo de seu potencial e a média de seu valor trimestral em toda a série iniciada em 1998 é de -2,7%; e, no período recente, do primeiro trimestre de 2014 até o quarto trimestre de 2020, é de -5,6%.


Fonte: IBGE e elaboração própria

De fato, como se verifica no Gráfico 8 abaixo, o produto potencial e o efetivo da indústria caminharam próximos por toda a série e se distanciaram após o início da recessão de 2014, com ambos declinando significativamente.


Fonte: IBGE e elaboração própria

Por sua vez, a PTF ilustrada abaixo no Gráfico 9, da indústria, que declinou em média à taxa trimestral de 0,3% desde o início da série em 1998 até o final da recessão no início de 2016, começa a crescer a partir do primeiro trimestre de 2016 à taxa média trimestral de 1%. Seu valor no quarto trimestre está acima de todos os demais, à exceção dos valores de 1998.


Fonte: IBGE e elaboração própria

A decomposição do crescimento do produto potencial da indústria, ilustrada no Gráfico 10, mostra a forte contribuição positiva da PTF para o crescimento do produto potencial da indústria e as contribuições negativas do capital e do trabalho que eram os fatores preponderantes no passado.

    
Fonte: IBGE e elaboração própria

O Gráfico 11 abaixo explora a importância do trabalho potencial na redução do produto potencial da indústria. A série do hiato da indústria inicia-se em 1998, sendo possível observar a evolução do trabalho potencial em 91 taxas de variação trimestrais; delas, apenas 17 são negativas, com média -0,7%. A taxa de variação trimestral média do período é de 0,6%, sendo possível identificar três fases: a do início da série em 1998 até o quarto trimestre de 2008, quando a média da taxa de variação foi de 1% ao trimestre; a segunda fase em que o trabalho potencial cresce 0,3% até o quarto trimestre de 2014 e declina abruptamente até o quarto trimestre de 2019, com taxa média de -0,4% por trimestre e com outra queda abrupta média de 3,4% até o quarto trimestre de 2020. No segundo trimestre, houve a queda mais forte (-11,2%)


Fonte: IBGE e elaboração própria

O hiato do setor de serviços

O setor de serviços, apesar de muito afetado pela pandemia no segundo trimestre de 2020, apresentou forte recuperação nos dois trimestres seguintes, tendo o hiato do seu produto fechado o quarto trimestre de 2020 em -2%. O hiato do produto do setor de serviços, no Gráfico 12, foi positivo na maioria dos trimestres e se torna negativo a partir do início da recessão, iniciada no 2º trimestre de 2014, chegando a apresentar um hiato negativo de 5,1% no quarto trimestre de 2016, e oscilando em torno de um negativo de 4,5%, com a pandemia levando o indicador a -12,6%


Fonte: IBGE e elaboração própria

O Gráfico 13 esclarece esse movimento: até o terceiro trimestre de 2013, o produto efetivo e o potencial do setor de serviços foram positivos na maioria dos trimestres, mas de baixo valor; a média dos hiatos foi de 0,01% enquanto a média dos hiatos no período posterior, até o último trimestre de 2020, foi   de -3,5%.


Fonte: IBGE e elaboração própria

A PTF dos serviços, no Gráfico 14, cresceu em média 1% por trimestre desde o início da série em 1998 até o segundo trimestre de 2013, a partir de quando sofre uma queda vertiginosa. Volta a uma tendência de recuperação somente após o fim da recessão em 2016, com uma queda de 1% por trimestre durante esse período recente.


Fonte: IBGE e elaboração própria

A decomposição do crescimento do produto potencial de serviços, no Gráfico 15, mostra que a PTF contribuiu negativamente no período pós 2013 sem se recuperar no período posterior.


Fonte: IBGE e elaboração própria

O Gráfico 16 abaixo explora a importância do trabalho potencial na redução do produto potencial dos serviços. A série do hiato de serviços inicia-se em 1998, sendo possível observar a evolução do trabalho potencial em 91 taxas de variação trimestrais; delas apenas 19 são negativas, com média de -1,2%. A taxa de variação trimestral média do período é de 0,7%, sendo possível identificar três fases: a do início da série em 1998 até o quarto trimestre de 2014, quando a média da taxa de variação foi de 0,7% ao trimestre; a segunda fase em seguida, em que o trabalho potencial cresce 0,4% até o quarto trimestre de 2019 e declina abruptamente durante a pandemia, com forte queda no segundo trimestre (-9,6%) e um pequeno espasmo de recuperação no quarto trimestre de 2020.


Fonte: IBGE e elaboração própria


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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