Progresso nas vacinas contra Covid-19 é sinal positivo, mas desafios domésticos persistem

26/11/2020

As últimas semanas foram marcadas por intensa oscilação no humor dos mercados financeiros. No âmbito internacional, contribuíram para esse comportamento o desfecho da eleição nos EUA, a divulgação de resultados promissores nos testes de algumas vacinas contra a Covid-19 e o recrudescimento da pandemia, em especial na Europa.

A vitória de Joe Biden na eleição presidencial veio em linha com as pesquisas, mas foi mais difícil e disputada do que essas previam. As eleições para o Congresso também foram menos favoráveis para o Partido Democrata do que as pesquisas sinalizavam. Na Câmara dos Deputados, os republicanos ampliaram sua representação, ainda que sem conquistar o controle da casa. No Senado, por sua vez, tudo indica que os republicanos manterão a maioria.

A julgar pelo comportamento dos preços de ativos, o mercado financeiro recebeu favoravelmente a surpresa da divisão de poder entre democratas e republicanos, ainda que isso possa significar uma recuperação mais modesta da atividade e do emprego em 2021. 

Os avanços para a descoberta de uma vacina eficaz têm gerado otimismo e aumento do apetite pelo risco, já que cresceu a probabilidade de uma solução sanitária mais segura para deter a pandemia no ano que vem. Tudo indica que até o final do ano várias empresas já terão solicitado autorização de produção e distribuição de suas vacinas, que têm mostrado elevada eficácia. O cenário atual é que, em meados do primeiro semestre de 2021, já esteja em curso um amplo programa de vacinação, pelo menos nos países desenvolvidos.

As notícias animadoras sobre as vacinas reduziram o impacto sobre o mercado da frustração com a não aprovação de um novo e robusto pacote fiscal nos EUA ainda este ano. O Congresso dividido, a postura do presidente Donald Trump sobre o resultado eleitoral e a surpreendentemente alta votação que este recebeu contribuem para manter o impasse político entre republicanos e democratas e tornam improvável a aprovação de novo pacote fiscal na atual administração.

Os resultados preliminares divulgados pelas empresas que buscam uma vacina eficaz também contribuíram para mitigar o impacto nos mercados de um expressivo recrudescimento da pandemia. Em termos globais, o número de novos casos voltou a aumentar significativamente, alcançando 600 mil novos infectados por dia, com o número de mortes subindo para cerca de 10 mil óbitos diários. 

O avanço nos casos de COVID-19 nos EUA tem levado à adoção de medidas restritivas em estados importantes do país, como Nova Iorque e Califórnia. O mesmo tem ocorrido em vários países europeus, assim como no Japão e na Austrália. As novas medidas de isolamento social tendem a frear a velocidade de recuperação da atividade no setor de serviços, o mais representativo e o que mais emprega nas principais economias do mundo.

Os indicadores conjunturais dos EUA reforçam a previsão de expansão menor do PIB no quarto trimestre. As vendas do comércio varejista subiram 0,3% em outubro ante setembro, desacelerando em relação à alta anterior de 1,6%. É importante destacar que o número do mês anterior foi revisto para baixo e mesmo assim o resultado de outubro ficou aquém do previsto pelo mercado. Tudo indica que a desaceleração prevista para atividade no quarto trimestre pode ser ainda maior do que atualmente se espera, diante do avanço expressivo da pandemia nas últimas semanas.

Na zona do euro, a produção industrial de setembro e o Índice de Confiança Econômica de novembro também ficaram abaixo das expectativas, indicando que a economia do bloco deve seguir se enfraquecendo no curto prazo, por conta de medidas de isolamento social adotadas para a conter a segunda onda da Covid-19 na região.  O mais provável é que o PIB da região caia de novo no quarto trimestre, ainda que de forma menos acentuada do que no segundo trimestre.

No Brasil,  o número de casos também voltou a crescer, mas ainda há dúvidas sobre se haverá uma nova onda de infecção e a sobre necessidade, ou não, de novas medidas de restrição à atividade econômica. Porém, pelo menos no curto prazo, a recuperação segue em curso. Projetamos para o PIB do terceiro trimestre retração de 4,9% na comparação interanual e crescimento de 7,4% na margem. Para o ano de 2020, projetamos queda de 5,0%.

Para o quarto trimestre, esperamos desaceleração do ritmo de crescimento, que está sendo confirmada pelos indicadores já divulgados. A redução do valor do auxílio emergencial, a antecipação, para o segundo trimestre, do pagamento do décimo terceiro de aposentados e pensionistas do INSS, totalizando R$ 47 bilhões, e a recuperação lenta do mercado de trabalho são as principais forças por trás dessa desaceleração.

Conforme destacado na prévia das Sondagens do FGV IBRE, com dados coletados até o dia 13 de novembro, há um recuo na confiança empresarial e dos consumidores. Em relação ao número final de outubro, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) recuou 0,9 ponto, para 96,2 pontos, enquanto o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 2,2 pontos, para 80,4 pontos. Apesar de a indústria continuar com resultados favoráveis até o momento, mesmo nesse setor as expectativas em relação aos próximos meses começaram a ser revistas para baixo.

Também no Brasil os ativos financeiros se beneficiaram do otimismo advindo dos resultados positivos quanto às vacinas. No entanto, em termos de perspectivas para 2021, o que preocupa mais é a paralisia na agenda de reformas estruturais e as declarações sobre uma possível extensão de estímulos fiscais no ano que vem. Esse quadro de paralisia e pouca preocupação com a deterioração do quadro fiscal afeta negativamente os mercados e limita os ganhos resultantes do aumento do apetite dos investidores pelo risco. 

O mau humor com o rumo da política econômica se reflete no Índice de Condições Financeiras (ICF) produzido pelo FGV IBRE, que, a despeito da melhora observada em novembro, continua cerca de 40% acima dos valores verificados entre os meses de abril e agosto. De acordo com Miranda (2020)[1], o comportamento do ICF está em linha com a dinâmica da Incerteza Fiscal, índice também divulgado pelo FGV IBRE. A partir de setembro, houve um forte aumento da incerteza fiscal, com impactos significativos sobre os preços dos ativos financeiros e, consequentemente, um aperto nas condições financeiras.

Sem uma solução para o impasse fiscal, as condições financeiras continuarão apertadas, prejudicando a recuperação da economia brasileira em 2021. Além disso, um cenário de maior incerteza fiscal pode tornar os choques inflacionários de curto prazo mais permanentes. O tempo urge.


Esse é o sumário do Boletim Macro Ibre de novembro de 2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

[1] Ver “Alívio das condições financeiras pode ser rapidamente revertido pelo risco fiscal”, publicado no Blog do IBRE em 18 de novembro de 2020 por Luana Miranda (https://blogdoibre.fgv.br/posts/alivio-das-condicoes-financeiras-pode-se...).

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