Cenários

Hiato da indústria e dos serviços

6 ago 2026
Claudio Considera Henrique Bittencourt

O hiato do produto da indústria (0,9%) e dos serviços (1,2%) ficou positivo no 1º trimestre de 2026. O avanço reverte anos de terreno negativo após forte ociosidade, mas os dados acendem o alerta para a estagnação crônica da produtividade.

INTRODUÇÃO

Em 08/07/2026, publicamos neste Blog do IBRE os resultados do hiato do PIB do primeiro trimestre de 2026. O hiato do produto1 no primeiro trimestre foi estimado em 3,5%, estando positivo desde o primeiro trimestre de 2023, após passar oito anos em terreno negativo (desde o terceiro trimestre de 2014). Neste post estamos publicando nossas estimativas do hiato do produto para as atividades da indústria e de serviços.  

(os dados deste post podem ser acessados neste Excel)

O HIATO DA INDUSTRIA[1]    

O hiato da indústria no primeiro trimestre de 2026 foi estimado em 0,9% e representa a primeira leitura positiva desde o quarto trimestre de 2020; entretanto seus resultados têm sido, na maioria dos trimestres, negativos desde o início da série em 1998. O Gráfico 1 ilustra essa trajetória e a tímida reversão na trajetória do hiato, evidenciando a presença de capacidade ociosa na economia nos últimos quarenta e um trimestres (mais de 30 anos).

Vale à pena ressaltar que o hiato tem sido negativo desde 2014, a despeito dos períodos de crescimento industrial antes de 2014. Do início da série em 1998 até 2014, a indústria cresceu 41% e, a partir de 2014, a indústria ficou virtualmente estagnada, com pontos de quedas e de recuperação.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) -  elaboração própria.

 Gráfico 2 mostra que a produtividade do capital e a produtividade do trabalho se reduziram de 1998 até 2009, enquanto a PTF[2] continuou a cair até 2016. A produtividade do capital volta a crescer a partir de 2005 até 2017, declinando a partir daí, e ficando estagnada durante o resto do percurso. A produtividade do trabalho fica oscilando a partir de 2010 até o fim do período. A PTF volta a crescer até 2022 e fica estagnada a partir daí, com tênue tendência à queda.

Aqui parece surgir uma contradição, já que há forte crescimento da indústria desde 1998 até o início da recessão de 2014, com a PTF em queda durante o período. Isso ocorreu devido a forte aporte de trabalho, provavelmente menos qualificado, e de capital, com pouco avanço tecnológico em relação ao existente. Desde o início da série em 1998 até 2015 (dezessete anos), a quantidade de trabalho efetivo cresceu 59% e a de capital 56%. Nos dez anos posteriores, até 2025, o trabalho utilizado cresceu 1,4% e o capital 2,8%. Durante o período posterior – de 2016 em diante – as produtividades ficaram estagnadas, com a PTF dando indicações de continuar em queda.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) - elaboração própria.

O HIATO DE SERVIÇOS[3]

O hiato de Serviços do primeiro  trimestre de 2026 foi estimado em 1,2%, sendo o nono resultado positivo desde o primeiro trimestre de 2024 (2024Q1), quando o hiato se tornou positivo (Gráfico 3). Antes disso, desde 1998 e até 2014, o produto potencial e o efetivo de serviços cresceram fortemente, dobrando seus níveis. Do fim da recessão até 2020, o hiato foi negativo em razão da estagnação do produto potencial. A partir do final da pandemia, no fim de 2020, os produtos potencial e efetivo voltam a crescer celeremente  (cerca de 25%), com ligeira vantagem do produto efetivo, acarretando a volta de um hiato positivo a partir de 2024.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) - elaboração própria.

O Gráfico 4 ilustra a evolução das produtividades do capital, do trabalho e da Produtividade Total dos Fatores – PTF.  As produtividades do capital e do trabalho ficam virtualmente estagnadas de 1998 a 2005; a partir daí, a produtividade do trabalho permanece estagnada, mas a do capital se reduz fortemente, estabilizando-se posteriormente ao final de 2016. Isto se deveu a sobreutilização do capital em relação ao seu potencial. Por sua vez, a PTF declina desde o início da série em 1998 e se estabiliza no fim da recessão em 2016Q4, com tênue indicação de retomada no fim do período.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) -  elaboração própria.

 

[1] A atividade INDUSTRIA compreende a indústria extrativa mineral, transformação e construção; exclui, portanto, a eletricidade.

[2] A partir de 2023, fizemos um aprimoramento em nosso método de cálculo do produto potencial, que envolve o tratamento da variável Produtividade Total dos Fatores (PTF). Essa variável não é mais considerada um resíduo da função de produção, após a estimativa do capital e do trabalho utilizados. Doravante, a reconhecemos como a tendência daquela série obtida pelo resíduo, após aplicação de método de filtragem (HP). Isso resulta em uma série com menos ruído e volatilidade.

[3] A atividade de serviços neste texto compreende as atividades de transportes, comércio, outros serviços; exclui, portanto, serviços financeiros, serviços imobiliários,  administração pública e  serviços de informação

Comentários

Raimundo Casé
1. O potencial do PIB na planilha 1T26 não fecha com as próprias colunas Onde encontrei. Na planilha, a coluna PIB pot deveria ser exatamente PTF × K pot^0,5 × L pot^0,5, usando as colunas vizinhas. Recalculei essa conta e comparei com o valor publicado. Trimestre PIB pot publicado PTF × K pot^0,5 × L pot^0,5 Diferença Hiato publicado Hiato recalculado 2008T4 — — −0,93% — — 2010T2 154,29 155,65 −0,88% 3,02% 2,12% 2014T1 172,46 173,55 −0,63% 2,65% 2,00% 2016T4 176,64 175,97 +0,38% −7,90% −7,55% 2026T1 190,62 190,94 −0,17% 3,52% 3,35% O teste decisivo foi comparar as três divulgações: Divulgação PIB Indústria Serviços 3T24 diferença máxima 0,000% — — 4T24 0,000% 0,000% 0,000% 1T26 0,932% 0,000% 0,000% A quebra aparece só na aba PIB da divulgação 1T26. Nas versões anteriores e nos setores, a identidade fecha até a última casa decimal. Por que não consigo explicar a causa. Abri as fórmulas do Excel: PTF, capital, trabalho e potencial estão colados como números, e só a coluna do hiato é fórmula. Testei as hipóteses óbvias e nenhuma reproduz o potencial publicado: PTF sem filtro; filtro HP com λ de 100, 400 ou 1600; PTF da divulgação 4T24 combinada com os fatores da 1T26. A PTF implícita no potencial publicado oscila entre −0,02% e +0,17% por trimestre, enquanto a PTF da coluna cresce suavemente (~0,06%). O mais provável é que o PIB pot tenha sido calculado com uma versão dos insumos diferente da que foi colada nas colunas. O trabalho, por exemplo, mudou até 3,9% entre as divulgações 4T24 e 1T26.

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