PTF cresce em 2020, mas incerteza em relação ao comportamento dos indicadores permanece elevada

29/03/2021

Os eventos associados à pandemia da Covid-19 tiveram impactos negativos sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho e elevaram de forma extraordinária o nível de incerteza em relação ao desempenho da economia e quanto à dinâmica dos indicadores de produtividade, especialmente no Brasil.

Uma das medidas amplamente utilizadas é a produtividade do trabalho, que consiste no Valor Adicionado gerado por trabalhador ou por hora trabalhada. Esta variável, no entanto, não permite avaliar o grau de eficiência com que são utilizados os recursos produtivos. Um indicador que permite esta análise é a produtividade total dos fatores (PTF), que leva em consideração não somente a produtividade da mão-de-obra, mas também a eficiência do uso de capital.

Recentemente, o Federal Reserve Bank (FED) de São Francisco divulgou os resultados da produtividade total dos fatores dos Estados Unidos referentes a 2020. Os dados indicaram que a PTF caiu 2,2% em relação a 2019. No entanto, uma medida de PTF que faz um ajuste em função da redução do grau de utilização dos fatores de produção revelou uma queda bem menor da PTF nos Estados Unidos (-0,3%), na mesma base de comparação.

No Brasil, embora existam estimativas da PTF em frequência anual, não existem informações públicas com frequência trimestral. Com base na divulgação das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua, por parte do IBGE, bem como da Sondagem da Indústria, pelo FGV IBRE, foi possível construir o indicador de PTF de periodicidade trimestral, que permite uma análise conjuntural deste que é o principal motor do crescimento econômico.[1]

Desde o ano passado temos divulgado estatísticas de PTF usando como medida do fator trabalho tanto o número de pessoas ocupadas quanto o total de horas trabalhadas. Esta última medida considera a informação sobre o total de horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações, obtida da PNAD Contínua, que tem como referência uma semana em que não haja situações excepcionais que alterem a duração rotineira do trabalho, ou seja, uma semana típica de trabalho.[2]

A PNAD Contínua também fornece informações sobre as horas efetivamente trabalhadas na semana de referência, que podem incluir reduções por motivo de doença, feriado, falta voluntária, atraso ou por outra razão, bem como aumentos por conta de pico de produção e compensação de horas não trabalhadas em outro período.

Até o início da pandemia, os resultados obtidos a partir das duas medidas de horas trabalhadas eram semelhantes. No entanto, em função das medidas de distanciamento social necessárias para conter os efeitos da pandemia, desde o primeiro trimestre[3] os dados da PNAD Contínua passaram a revelar um descolamento entre as duas medidas de horas trabalhadas, o qual foi particularmente forte no segundo trimestre, com redução muito mais pronunciada das horas efetivamente trabalhadas que das horas habitualmente trabalhadas e do pessoal ocupado. Essa discrepância se manteve no terceiro e no quarto trimestre de 2020, porém em menor magnitude, devido ao processo que se iniciou de normalização da economia e consequentemente das horas efetivamente trabalhadas.[4]

Além da disrupção observada no mercado de trabalho, a pandemia da Covid-19 também provocou um forte descolamento entre o crescimento do Valor Adicionado e do estoque de capital em uso, que é o segundo fator de produção utilizado para o cálculo da PTF, tal como apresentado no Gráfico 1.[5]

Gráfico 1: Taxa de crescimento do Valor Adicionado e do estoque de capital em uso –
(Em % e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior) – Brasil


Fonte: Elaboração FGV IBRE com base nos dados das Contas Nacionais Trimestrais e Sondagem da Indústria.

O Gráfico 1 mostra que, apesar da volatilidade do estoque de capital em uso, seu crescimento e do Valor adicionado sempre estiveram próximos até o quarto trimestre de 2019. No entanto, com o início da pandemia da Covid-19 no primeiro trimestre de 2020, esse cenário começou a mudar.

Enquanto no primeiro trimestre de 2020 o valor adicionado apresentou queda de 0,3% e o estoque de capital em uso cresceu 2,8% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, no segundo trimestre o descolamento foi ainda mais dramático, com queda no estoque de capital em uso (-17%) muito maior que a redução do Valor Adicionado (-10,3%). Essa discrepância está relacionada ao recuo no segundo trimestre, para níveis historicamente baixos, do nível de utilização da capacidade instalada (NUCI).[6]

A melhora gradual da NUCI no terceiro trimestre amenizou essa discrepância entre o crescimento do Valor Adicionado e o estoque de capital em uso. Em especial, nesse trimestre o Valor Adicionado apresentou uma queda de 3,7%, enquanto o estoque de capital em uso mostrou avanço de 1,1%.[7]

Já no quarto trimestre de 2020, o distanciamento entre o valor adicionado e o estoque de capital em uso voltou a aumentar. Nesse trimestre, enquanto o Valor Adicionado apresentou queda de 1,4%, o estoque de capital em uso avançou 7%, fruto de um forte aumento do nível de utilização observado neste trimestre (5,6%).[8]

O texto completo contendo a análise dos indicadores trimestrais de PTF no Brasil pode ser acessado pelo site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

[1] As séries trimestrais de PTF e de produtividade do trabalho estão disponíveis no site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade. No site também se encontram disponíveis notas metodológicas que descrevem a construção dos indicadores trimestrais de produtividade do trabalho e PTF.

[2] O total de horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações corresponde ao produto da jornada média pelo número de pessoas ocupadas.

[3] Na nota que divulgamos referente aos resultados da produtividade do trabalho no primeiro trimestre já havíamos chamado atenção para a queda mais forte das horas efetivas em comparação com as horas habituais em função dos efeitos iniciais da pandemia no mercado de trabalho. O texto pode ser acessado através do link: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/indicadores_trimestrais_de_produtividade_do_trabalho_-_1t2020_final.pdf

[4] Enquanto que no terceiro trimestre de 2020 as quedas do emprego, das horas habitualmente trabalhadas e das horas efetivamente trabalhadas em relação ao terceiro trimestre de 2019 foram de 12,1%, 11,9% e 16,4%, respectivamente, no quarto trimestre estas quedas foram de 8,9%, 9,1% e 10,4%.

[5] O estoque de capital em uso é obtido a partir do produto entre o estoque de capital e o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria de transformação calculada pela FGV IBRE, e usada em nosso exercício como proxy para o nível de utilização total da economia.

[6] A queda de 18,1% do NUCI no segundo trimestre de 2020, em relação ao segundo trimestre de 2019, foi a maior já observada ao longo da série histórica que retropolamos até 1981, reduzindo ainda mais o nível do indicador que já estava num patamar relativamente baixo desde 2014. A redução do NUCI ocorreu principalmente diante da necessidade de isolamento social e do fechamento de estabelecimentos na tentativa de conter a propagação do coronavírus.

[7] No terceiro trimestre de 2020 já foi possível notarmos uma melhora do NUCI, com queda de apenas 0,3% em relação ao mesmo período de 2019.

[8] Os dados mostram ainda que no ano de 2020 houve uma queda de 3,9% no valor adicionado e redução de 1,4% no estoque de capital em uso.

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