Cenários

Após forte crescimento em 2023, produtividade do trabalho avança apenas 0,1% em 2024

4 abr 2025

Embora a recente formalização aponte para a possibilidade de ganhos mais duradouros de produtividade, os fatores que permitiram que a renda per capita crescesse acima da produtividade tendem a ter contribuição menor no futuro.

O FGV IBRE elegeu a produtividade como uma das preocupações centrais de sua missão institucional de contribuir para o debate sobre o desenvolvimento econômico do país. Diante da relevância do tema, o FGV IBRE lançou o site Observatório da Produtividade Regis Bonelli, que reúne uma ampla base de dados sobre produtividade da economia brasileira, além de estudos e análises, a fim de fornecer informações para uma maior compreensão do tema e contribuir para a formulação de políticas públicas que possam aumentar a produtividade e impulsionar o crescimento econômico.[1]

Uma das motivações para o aprofundamento de estudos relacionados ao tema é a perda de dinamismo da economia brasileira ao longo dos últimos anos, intensificada pela forte recessão pela qual o país passou entre 2014 e 2016, uma das mais longas e profundas da história, e sua lenta recuperação entre os anos de 2017 e 2019. Este cenário ficou ainda mais relevante em função da pandemia de Covid-19, que gerou grande impacto sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho, fazendo com que a discussão sobre o tema da produtividade ganhe ainda mais importância.

Diante da relevância desse tema, o objetivo deste texto é analisar a evolução da produtividade do trabalho desde 1981[2] e sua relação com a renda per capita, com ênfase no seu comportamento desde 2020. O Gráfico 1 apresenta a evolução da renda per capita e da produtividade por hora trabalhada de 1981 até 2024.[3]

Gráfico 1: Evolução da renda per capita e da produtividade
por hora trabalhada. Número índice (1981=100). Brasil: 1981-2024.

Fonte: Elaboração do FGV IBRE com base nas Contas Nacionais, Pnad e Pnad Contínua – IBGE.

O Gráfico 1 mostra que, até a eclosão da pandemia em 2020, o comportamento da renda per capita sempre esteve bastante correlacionado com a dinâmica da produtividade por hora trabalhada[4]. Para entendermos melhor a evolução da renda per capita, apresentamos na Tabela 1 uma decomposição do crescimento da renda per capita para períodos selecionados desde 1981.[5]

Tabela 1: Decomposição do crescimento da renda per capita
(em % ao ano). Brasil – Períodos selecionados.
[6]

Fonte: Elaboração do FGV IBRE com base nas Contas Nacionais,
Pnad, Pnad Contínua e estimativas populacionais do IBGE.

Além do crescimento da produtividade por hora trabalhada, o aumento da renda per capita depende da jornada média de trabalho. Outro fator relevante é a taxa de ocupação, que corresponde à proporção de trabalhadores ocupados em relação à população economicamente ativa. Um quarto determinante é a taxa de participação, caracterizada pela razão entre a população economicamente ativa e a população em idade ativa. Finalmente, a razão entre a população em idade ativa e a população total é uma medida da contribuição do bônus demográfico para o crescimento da renda per capita.[7]

Entre 1981 e 2024, enquanto a renda per capita cresceu 1,0% ao ano (a.a.), a produtividade por hora trabalhada avançou 0,5% a.a. Os dados da Tabela 1 mostram que, além do modesto crescimento da produtividade, o aumento da renda per capita foi beneficiado pela rápida expansão da população em idade ativa em relação à população (bônus demográfico), que aumentou 0,4% a.a. no período. Outra contribuição positiva para o crescimento da renda per capita foi o aumento da taxa de participação a uma taxa de 0,4% a.a., refletindo a incorporação de mais pessoas à atividade econômica. No entanto, a queda da jornada média (-0,3% a.a.) atuou no sentido de reduzir a renda per capita ao longo do período. A taxa de ocupação teve contribuição nula para o crescimento da renda per capita entre 1981 e 2024.

Acesse o artigo completo no Observatório da Produtividade Regis Bonelli.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

[1]O Observatório da Produtividade Regis Bonelli pode ser acessado através do link: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade

[2]As séries de produtividade do trabalho encontram-se disponíveis no site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli. A metodologia de construção dos indicadores de produtividade do trabalho pode ser acessada através do link: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/nota_de_construcao_dos_indicadores_pt_-_brasil_anual_desde_1981_-_final.pdf

[3]Neste texto, definimos renda per capita como sendo a razão entre o valor adicionado obtido das Contas Nacionais e a população do país. Optamos por usar a informação de valor adicionado para que a análise fique compatível com o cálculo da produtividade por hora trabalhada, que também considera a informação de valor adicionado. O dado de valor adicionado difere do PIB pois este equivale à soma do valor adicionado com os impostos (líquidos de subsídios) sobre os produtos.

[4] As medidas de produtividade utilizadas neste artigo foram construídas dividindo-se o valor adicionado obtido das Contas Nacionais pelo total de horas trabalhadas em todas as ocupações, obtido da PNAD e da PNAD Contínua. Em particular, na Pnad Contínua o IBGE disponibiliza duas medidas de horas trabalhadas: horas habitualmente trabalhadas e horas efetivamente trabalhadas. Desde 2012, consideramos como medida do fator trabalho a variável de horas efetivamente trabalhadas, que pode incluir reduções por motivo de doença, feriado, falta voluntária, atraso ou por outra razão, bem como aumentos por conta de pico de produção e compensação de horas não trabalhadas em outro período. No entanto, na PNAD anual não são disponibilizadas informações para horas efetivamente trabalhadas. Diante disso, para os anos anteriores a 2012, retropolamos a série de horas efetivamente trabalhadas com base na variação das horas habitualmente trabalhadas, visto que de 2012 a 2019 não havia grande diferença na variação das duas medidas de horas trabalhadas. Para mais detalhes, acesse a nota de construção dos indicadores de horas trabalhadas e pessoal ocupado no link a seguir: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/nota_de_construcao_dos_dados_de_emprego_e_horas_trabalhadas_-_final.pdf

[5] Na Tabela 1, o primeiro ano de cada período refere-se ao ano-base da análise.

[6] A população em idade ativa compreende as pessoas com idade entre 15 e 64 anos, ou seja, que estão aptas a exercer alguma atividade econômica. A população economicamente ativa compreende o grupo de pessoas que estão ocupadas e desocupadas (que não trabalham, mas estão à procura de emprego).

[7] As informações sobre a população total e a população em idade ativa foram retiradas das estimativas populacionais do IBGE.

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