Política Monetária

Se a crise se antecipar, pouco haverá a fazer na política monetária

10 jun 2026

Estresse dos juros é tamanho que, na sexta-feira passada, juros reais ultrapassaram picos da crise do governo Dilma (em 2015). Por exemplo, os juros de cinco anos atingiram inacreditáveis 8,49% ao ano (contra 7,93% no pico da crise de 2015).   

Na minha coluna para o Broadcast, publicada em 12 de maio, eu argumentei que o Copom deveria estender o horizonte relevante de política monetária em um ano, passando de dezembro de 2027 para dezembro de 2028.  Isto permitiria absorver o choque de oferta ao mesmo tempo em que manteria a pressão anti-inflacionária num prazo mais longo, permitindo uma queda gradual da taxa selic. Ao longo deste mês transcorrido desde então, houve algumas importantes alterações no cenário. Logo no dia seguinte à publicação do artigo, descobriu-se que o candidato Flávio Bolsonaro havia pedido recursos para Daniel Vorcaro como o objetivo de produzir um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A taxa de câmbio R$ por US$ subiu de 4,89 no fechamento do dia 12/5 para 5,01 no fechamento do dia 13 de maio. Este efeito imediato mostrou que a tese, que era muito corriqueira, de que as eleições presidenciais não estavam ainda mexendo com preços de ativos financeiros, era completamente errada. E mostrou o óbvio: a queda nas probabilidades de vitória da direita nas eleições deste ano teve impacto imediato na taxa de câmbio. A preocupação é legítima, como eu já mostrei na coluna do Broadcast de março deste ano.  Lula, o candidato da esquerda, não tem política fiscal crível que seja sustentável para seu próximo mandato, e isso faz com que o país se aproxime a passos rápidos da zona de dominância fiscal (estimativas indicam que esta zona será atingida com uma DBGG entre 85% a 90% do PIB). Quanto mais nos aproximamos desta zona, mais a solução para nosso problema fiscal será única: através da inflação.   Mas, de lá para cá muito mais aconteceu. A guerra dos EUA e Israel contra o Irã continua, com tréguas intermitentes. Com a continuidade do preço elevado do petróleo, este confronto vai provavelmente causar um aumento de taxas de juros na Europa e muito possivelmente também nos EUA. O capital estrangeiro tem fugido da bolsa brasileira, com retirada líquida desde meados de abril e ainda continua assim em maio e junho.  A taxa real/dólar ficou oscilando acima de R$5,00 desde o dia 13/5.  Na sexta-feira dia 5/6 fechou em R$5,17. E isto chama a atenção para um efeito que paira sobre os preços de ativos: a normalidade aparente que reinava no país até meados de abril pode estar chegando ao fim. Como eu já observei na coluna de outubro de 2025, a normalidade é ilusória, causada por um juro real excessivamente alto num mundo em que as expectativas eram de quedas de juros internacionais. Com o episódio que liga Flávio Bolsonaro a Vorcaro, ficou claro o efeito da diminuição da chance da direita ganhar as eleições neste ano: uma imediata desvalorização da nossa moeda pelos locais. Isto mostrou que não só os estrangeiros estavam otimistas com o país, mas também os brasileiros – afinal o próximo governo poderia “consertar” o estrago econômico causado pelas desastrosas políticas gastadoras do governo Lula 3.  Quando as expectativas mudam e há maior probabilidade do próximo governo ser incapaz de corrigir os rumos da política fiscal, a história muda. E aqui é que o assunto fica mais quente: agora o Brasil já não é mais o queridinho dos mercados internacionais.

Para percebermos com mais clareza a grave situação em que se encontra a economia brasileira, veja que a inflação implícita subiu entre 12/5 e 5/6 nos prazos de 2, 5 e 12 anos.  Da mesma forma, entre 12/5 e 5/6 subiram os juros reais das NTN-B’s de 2, 5 e 12 anos (alta expressiva, entre 0,48% e 0,72%).  O estresse dos juros é tamanho que, na sexta-feira passada (5 de junho), os juros reais já ultrapassaram os picos atingidos na crise do governo Dilma (em 2015). Por exemplo, os juros de 5 anos atingiram inacreditáveis 8,49% ao ano (contra 7,93% no pico da crise de 2015).    

Isto indica que pode estar em curso a antecipação da crise que se previa acontecer mais para o fim do ano, caso houvesse reeleição de Lula com a manutenção do ímpeto gastador. Como isto impacta os modelos de previsão do Bacen? Principalmente através da taxa de câmbio. E aqui está o problema todo. Caso a projeção do Copom para a inflação de dezembro de 2028 venha a sofrer alteração, então a extensão de horizonte relevante de política monetária, que foi sugerida pelo meu artigo do mês passado, poderá não ser suficiente para fazer a inflação prevista pelo Bacen voltar a convergir para a meta até aquela data. Se o câmbio sair do controle, nada mais poderá deter o avanço da inflação.  Com ou sem política monetária ativa. A potência da política de juros está em seu limite.

O que fazer para evitar ou mitigar a crise? É claro, a melhor de todas as alternativas para o país seria uma declaração do presidente Lula de que 2027 será um ano de forte restrição na despesa pública. Tendo em vista o comportamento observado pelo terceiro mandato, tal anúncio é altamente improvável. Mantido o ânimo expansionista até aqui observado, o que deveria ser feito é que todos os candidatos a presidente de direita com alguma probabilidade de vencer a eleição (até agora esta lista é composta de: Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos) devem se contrapor com vigor à política fiscal gastadora do PT e advogar um choque importante neste front. Ainda não se viu tal defesa enfática de um forte ajuste fiscal por parte de nenhum destes. E, se o candidato de direita que tem maior chance de passar para o segundo turno continuar concorrendo, mas com possibilidades enormes de ser derrotado por Lula no segundo turno, nada há a fazer – a crise chegará!

Agradeço à Nathalia Klein, da Sarpen Quant Investments, a elaboração dos cálculos das taxas reais e inflações implícitas.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Broadcast da Agência Estado, em 09/06/2026, terça-feira.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Comentários

Fábio
O mercado financeiro apoiou Lula na eleição de 2022 e ele respondeu com crescente expansão fiscal e juros elevados. Além da convivência do conluio do mercado financeiro com o crime organizado. O resultado foram lucros nunca antes visto neste País....
Fernando
A última decisão do BC confirma que entramos na dominância fiscal. Nao adianta aumentar a Selic a inflação vai continuar crescendo à espera de variáveis exogenas(!).
Sidney Parizotto
Jesus Cristo disse aos Apóstolos que não temam nada. Em extensão, para não temermos nada deste mundo. Em razão do meu histórico familiar, pelo que já vi e li, a nível pessoal não consigo deixar de temer o câncer. E pela minha formação acadêmica, e por leituras após o Curso de Economia na UFPR, e por ter vivido e trabalhado nos anos de hiperinflação, também temo o retorno deste mal econômico chamado inflação. Durante o governo Sarney, com seus sucessivos planos, com destaque ao plano cruzado e posterior estelionato eleitoral, quando o PMDB venceu 23 dos 22 governos estaduais, aprendi que a estabilidade da moeda e seus efeitos na estabilidade de preços são um “valor”. Tanto as vitórias do PMDB em 1986 quanto a reeleição de FHC em 1998 provaram isso. Para aqueles brasileiros, derrotar a inflação foi importante, suas vidas melhoraram. Mas hoje, em 2026, há consciência do que representaria o retorno da inflação a níveis acima de dois dígitos e fora de controle? Se acontecer o que o autor sugere, da taxa de juros perder seu poder para segurar preços e o descontrole fiscal do governo só ter como solução a volta da inflação, a consequência é poderemos ter mais uma década perdida na nossa história econômica, uma década no melhor cenário. Já estamos em processo de desindustrialização, com a expulsão de empresas para o Paraguai, e isso aumenta nosso atraso relativo comparado a outros países da OCDE e trará sofrimento justamente aos eleitores, que, em sua maioria, votaram no governo que trouxe este mal de volta.

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